No Egito, o ato de dar gorjetas transformou-se de um gesto de cortesia em uma necessidade para muitos trabalhadores e um fardo para quem paga. Este fenómeno, que abrange desde clínicas a serviços públicos, ilustra não apenas a desigualdade social, mas também a fragilidade das relações económicas e humanas no país.
Entregar dinheiro para furar filas, receber ajuda extra ou simplesmente como forma de agradecimento é uma prática tão comum que algumas empresas consideram as gorjetas no Egito como um gasto rotineiro. Funcionários de mesa, porteiros e estafetas recebem gorjetas, tal como em muitos outros países. No entanto, a situação é mais grave em setores como clínicas médicas privadas, onde rececionistas e até enfermeiros de hospitais pedem gorjetas por tarefas simples, como levar água aos pacientes.
O Egito, a nação mais populosa do mundo árabe, enfrenta uma crise cambial sem precedentes e a pior inflação dos últimos cinco anos. A escalada dos preços tornou alimentos básicos, como o frango, inacessíveis para muitos egípcios. Estima-se que cerca de 30% da população viva abaixo do limiar da pobreza, enquanto o Banco Mundial já indicava em 2019 que cerca de 60% da população era considerada pobre ou vulnerável.
Nos últimos anos, o país passou por uma série de crises financeiras que o levaram a buscar ajuda de credores como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e aliados árabes do Golfo. Apesar das dificuldades, o FMI prevê um crescimento real do PIB de 4,3% em 2025 e 4,5% em 2026, impulsionado pela recuperação do turismo e pelo crescimento do setor da manufatura não petrolífera.
A desvalorização da libra egípcia é alarmante: em 2010, 100 libras equivaliam a cerca de 18 dólares, enquanto hoje valem apenas dois dólares. Apesar de as gorjetas no Egito serem uma prática enraizada, as opiniões sobre quando e quanto dar variam amplamente. Para muitos, o pagamento por favores pode ser visto como um gesto de gratidão, mas para outros, é simplesmente um suborno.
O governo egípcio tem cortado subsídios essenciais, como pão, gás e eletricidade, afetando ainda mais a população mais pobre. Marina Kaldas, gestora de redes sociais, partilhou ao “The New York Times” que, ao precisar de renovar a carta de condução com urgência, deu mil libras (33 dólares) a um funcionário para acelerar o processo. “Antes, 10 ou 20 libras eram suficientes. Agora, se der só 10, não consigo fazer nada”, explicou.
Amr Ahmed, um técnico de informática, também sentiu a pressão das gorjetas no Egito ao esperar por atendimento numa clínica lotada. O rececionista, com um tom amigável, deixou claro que poderia ser atendido mais rapidamente se estivesse disposto a pagar. Ahmed deu-lhe discretamente 50 libras, cerca de um dólar. “Às vezes, sentimos que pagamos tão pouco. Os salários baixos forçam as pessoas a depender de gorjetas. Precisam de dinheiro extra”, concluiu.
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gorjetas no Egito gorjetas no Egito Nota: análise relacionada com gorjetas no Egito.
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Fonte: Sapo





