Em Teerão, um homem entra numa oficina no meio da noite, após o seu carro avariar. O som peculiar que a sua perna faz ao andar chama a atenção de outro homem, que reconhece aquele som. É o som da prótese da perna do seu torturador, responsável por lhe ter causado as maiores provações durante a prisão, e que o assombra diariamente. Uma raiva profunda apodera-se dele e, mais tarde, ele persegue o homem, decidindo transformá-lo em prisioneiro. Está determinado a enterrá-lo vivo no deserto iraniano, mas o homem jura que está a ser confundido. A dúvida surge: será realmente ele o seu torturador? Esta incerteza leva-o a encontrar várias pessoas, todas ligadas pela tortura infligida pelo mesmo algoz.
Esta é a premissa do filme “Foi só um acidente”, do cineasta iraniano Jafar Panahi, que recentemente esteve em Lisboa para apresentar a sua obra, vencedora da Palma de Ouro em Cannes 2025. Como em todos os filmes de Panahi, as personagens circulam em carros pelo intenso trânsito da cidade, simbolizando a confusão e o conflito que as atormenta. A incapacidade de parar reflete o medo de confrontar as suas emoções e memórias reprimidas.
O filme desenrola-se quase como uma peça de teatro, com um elenco que se envolve em diálogos intensos, questionando as suas ações: castigar ou perdoar? Após várias detenções na prisão de Evin, em Teerão, Panahi traz consigo histórias de prisioneiros e opositores ao regime, cujas vidas foram destruídas e dignidade roubada. Este é um dos grandes trunfos do cinema de Panahi, que revela as trevas e dilemas existenciais de um país sob um regime brutal e repressivo.
Assistindo ao filme, recordei a peça “Death and the Maiden”, de Ariel Dorfman, onde uma vítima da ditadura chilena reencontra o seu torturador, levantando a mesma dúvida sobre a identidade do carrasco. O sofrimento, como sabemos, permanece ao longo da vida, deixando a vítima num estado irreparável.
Panahi, em várias entrevistas, afirma que não consegue imaginar criar filmes que não abordem a sociedade iraniana. Esta é a sua realidade, e é através dela que nos permite compreender melhor um país tão fechado e isolado como o Irão. Contudo, a partir deste microcosmos, o cinema de Panahi abre portas para temas universais que ressoam em todo o mundo.
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Fonte: Sapo





