A mediação imobiliária em Portugal tem enfrentado um percurso complexo ao longo das últimas décadas. Durante muito tempo, foi vista como uma atividade menor, associada a práticas questionáveis e à falta de especialização. Contudo, a realidade é que não há mercado imobiliário sem transações, e a mediação é uma peça fundamental nesse puzzle.
Desde a sua regulamentação em 1967, a mediação imobiliária tem evoluído, adaptando-se às exigências do mercado. Apesar de ter passado por várias fases, incluindo crises e renovações, hoje apresenta resultados impressionantes, tanto em termos de volume de negócios como de especialização. No entanto, a profissão ainda carece de maior credibilidade e formação, uma vez que muitos ainda a consideram acessória, quando na verdade é central para o ecossistema imobiliário.
Nos últimos anos, Portugal adotou um modelo de mediação que se inspira no empreendedorismo norte-americano. Neste modelo, o agente imobiliário e o proprietário do negócio colaboram em regime B2B, assumindo riscos e recebendo comissões variáveis, sem salários fixos. Embora este sistema possa parecer atraente, a realidade é que nem todos os agentes conseguem prosperar. A competição é feroz, e a rentabilidade é um desafio constante.
Nos últimos dez anos, a percentagem de comissões atribuídas aos agentes aumentou significativamente, com percentagens que chegam até 100%. Contudo, é importante notar que essas comissões são geralmente pagas pelo vendedor, que, em média, paga entre 3% e 5%. Com o aumento dos preços de venda, a luta pela rentabilidade tornou-se ainda mais intensa.
A famosa Lei de Pareto sugere que apenas 20% dos agentes conseguem uma sustentabilidade financeira consistente. A pressão para se destacar é elevada, e muitos agentes enfrentam dificuldades para viver apenas da mediação. Por outro lado, os mediadores, que gerem toda a operação, enfrentam margens cada vez mais reduzidas. Muitos já perceberam que, na prática, se tornaram empresas de serviços para agentes, em vez de se focarem na mediação imobiliária.
A tecnologia e a automação estão a provocar uma transformação significativa no setor. É previsível que alguns modelos tradicionais de mediação desapareçam, enquanto outros se reinventem. Os agentes, por sua vez, tendem a tornar-se mais independentes, assumindo o papel de “micro-mediadores”.
O futuro da mediação imobiliária não será como a conhecemos. As relações humanas, a especialização e a ética serão cruciais para a sobrevivência neste setor. A mediação não vai desaparecer, mas a ideia de que todos têm as mesmas oportunidades certamente se esvanecerá. O mercado exigirá que os profissionais se especializem e ofereçam valor real, enquanto aqueles que apenas se preocupam com a sua imagem poderão ficar para trás.
Ainda existe uma enorme oportunidade para quem compreende que a mediação imobiliária é, acima de tudo, um negócio de pessoas. A confiança e o valor nas relações contratuais serão determinantes para o sucesso a longo prazo.
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Fonte: Doutor Finanças




