O mundo enfrenta uma nova realidade alarmante: a falência hídrica global. Esta conclusão surge de um relatório das Nações Unidas, apresentado recentemente em Nova Iorque, que revela que 70% dos grandes aquíferos do planeta estão em declínio. O estudo, intitulado “Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era”, foi elaborado pelo Instituto para a Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) e destaca a gravidade da situação.
Mas o que realmente significa “falência hídrica”? De acordo com o relatório, este termo refere-se à sobreexploração das águas superficiais e subterrâneas, que ultrapassa a capacidade de reposição natural. A falência hídrica implica uma perda irreversível de capital natural associado à água, como aquíferos esgotados e zonas húmidas destruídas. Diferentemente do stress hídrico, que pode ser reversível, a falência hídrica representa um estado crítico sem retorno.
A mensagem é clara: em muitas regiões do mundo, a água está a ser consumida a um ritmo que supera a sua capacidade de renovação. Este não é um problema temporário, mas sim uma crise profunda que resulta na perda irreversível de recursos hídricos. Kaveh Madani, diretor do UNU-INWEH e autor principal do relatório, afirma que “estamos a viver além dos nossos meios hidrológicos”. Muitos sistemas de água não conseguem recuperar, mesmo com a chuva.
O relatório sugere uma mudança na forma como abordamos a questão da água. Termos como “stress hídrico” e “crise da água” já não são suficientes para descrever a realidade atual. A falência hídrica é um estado pós-crise, onde a exploração excessiva e a poluição ultrapassam os limites seguros, resultando em danos irreversíveis.
As consequências da falência hídrica são visíveis em todo o mundo. Cidades estão a afundar devido à subsidência dos solos, rios deixam de chegar ao mar e ecossistemas estão a colapsar. Mesmo regiões que recebem chuvas abundantes podem estar em falência hídrica se consumirem mais água do que a que recebem anualmente.
Embora nem todos os países estejam em falência hídrica, o relatório destaca que um número suficiente de sistemas críticos já ultrapassou os limites, alterando o panorama global de risco. A agricultura, que consome cerca de 70% da água doce, está no centro deste problema. Quando os aquíferos se esgotam, a segurança alimentar e o abastecimento de água potável ficam comprometidos.
Dados alarmantes sustentam este diagnóstico. Mais de 70% dos grandes aquíferos estão a declinar, e algumas regiões perderam mais de 30% da massa glaciar desde a década de 1970. Quase quatro mil milhões de pessoas enfrentam escassez de água pelo menos um mês por ano, e o custo económico das secas já atinge os 307 mil milhões de dólares anualmente.
A falência hídrica não é apenas uma questão ambiental, mas também de justiça social e segurança global. Os impactos recaem desproporcionalmente sobre comunidades vulneráveis, enquanto os benefícios do uso excessivo da água são frequentemente capturados por grupos mais poderosos. A forma como os países gerirem esta situação será crucial para a paz e a estabilidade social.
O relatório defende uma mudança de paradigma na gestão da água, passando de uma lógica de crise para uma lógica de falência. Isso implica aceitar que nem tudo pode ser recuperado, mas que ainda é possível evitar perdas adicionais e redistribuir os custos de forma justa. A proteção do capital natural remanescente e a transformação de setores intensivos são algumas das prioridades identificadas.
Com a Conferência da Água da ONU em 2026 e o prazo de 2030 para os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, o relatório apela a uma redefinição da relação do mundo com a água. Caso contrário, o défice hídrico continuará a crescer, até que não reste mais nada para gerir. Leia também: A importância da gestão sustentável da água.
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Fonte: Sapo





