Nos últimos anos, os CEOs têm sido frequentemente exaltados como figuras quase míticas, liderando equipas de topo e representando a face pública das suas organizações. A narrativa dominante sugere que, quando uma empresa apresenta resultados excecionais, o mérito é quase sempre atribuído ao seu líder máximo. Mas até que ponto esta associação reflete a realidade?
Recentemente, os resultados históricos da banca portuguesa trouxeram à tona esta questão. Praticamente todos os principais bancos do país reportaram lucros recorde. Podemos então concluir que estamos perante uma geração extraordinária de líderes bancários? Ou será que o desempenho excecional dos grandes bancos revela que a ação individual do CEO tem um impacto limitado nos resultados?
Uma análise simples sugere que fatores estruturais desempenham um papel crucial. A margem financeira líquida, que representa a diferença entre os juros pagos e cobrados em percentagem dos ativos, está significativamente acima dos níveis observados na banca europeia. Por exemplo, estima-se uma margem de 2,66% na Caixa Geral de Depósitos, 2,40% no Santander Portugal e 2,13% no BPI, em contraste com margens muito mais baixas em instituições como o UniCredit Group e o BNP Paribas. Além disso, o peso das comissões nos resultados operacionais dos bancos portugueses é comparável ao de instituições maiores e mais diversificadas, que oferecem serviços mais abrangentes. Este cenário ocorre num contexto de crescimento económico positivo e condições de política monetária favoráveis.
Diante destes dados, é pertinente questionar: o que diz a investigação científica sobre o real impacto dos CEOs no desempenho empresarial? A literatura internacional apresenta uma resposta clara e mais modesta do que o imaginário popular sugere. Um estudo de 2008 no “Strategic Management Journal”, com base em uma década de dados de empresas norte-americanas (excluindo o setor financeiro), concluiu que os CEOs podem explicar até 29,2% da variação do lucro. Contudo, ao analisar os lucros por segmento de negócio, esse impacto reduz-se para apenas 12,7%. Outro estudo publicado em 2014 e replicado em 2016 revela que, em média, o efeito da liderança do CEO na performance empresarial é praticamente indistinguível da influência do acaso.
Outras investigações indicam que o impacto dos CEOs tende a ser maior em setores menos regulados ou em empresas com mecanismos de governance menos exigentes. Mesmo nesses casos, a evidência mostra que a equipa de topo, como um coletivo, tem um efeito muito mais significativo no desempenho do que qualquer líder individual.
As implicações são claras. Os modelos de compensação dos CEOs deveriam refletir de forma mais rigorosa a sua contribuição real para os resultados, considerando fatores cíclicos ou estruturais e valorizando a performance conjunta da equipa executiva. Conselhos de administração e acionistas têm a responsabilidade de garantir que a remuneração premia o mérito real e não a sorte ou condições temporariamente favoráveis.
Num momento em que muitas organizações enfrentam desafios de competitividade, transformação digital e sustentabilidade, é essencial recentrar o debate: menos foco em super-líderes e mais atenção à qualidade das equipas, da estratégia e da governação. É aí que, segundo a investigação, reside o verdadeiro motor de desempenho.
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Fonte: Sapo





