A geopolítica tornou-se uma variável crucial nas decisões de investimento e gestão de risco das empresas portuguesas. O aumento das tensões no Irão, especialmente em relação ao Estreito de Ormuz, fez com que os empresários mudassem o foco das suas preocupações financeiras para a segurança das cadeias de fornecimento e do financiamento. Este cenário representa um verdadeiro teste à resiliência da economia nacional e à solidez da gestão empresarial.
Com vários indicadores a sinalizar um abrandamento do crescimento em Portugal, o ministro das Finanças já alertou para um possível impacto negativo na economia se o conflito se prolongar. Neste contexto, a qualidade da informação financeira e a gestão de risco ganham uma nova relevância, passando a ser temas centrais nas discussões empresariais.
Um dos primeiros efeitos da geopolítica na economia é sentido no setor energético. As tensões no Estreito de Ormuz colocaram os mercados de energia em estado de alerta. Embora Portugal não dependa diretamente do Golfo Pérsico, os preços do petróleo e do gás são definidos em mercados globais. A simples perceção de risco pode fazer subir os preços dos combustíveis, do gás e da eletricidade. As reservas estratégicas de petróleo oferecem algum alívio temporário, mas não garantem a estabilidade dos preços. Para muitas indústrias em Portugal, um aumento prolongado dos custos de energia resulta em margens reduzidas e menor capacidade de investimento, podendo até levar à destruição de capacidade produtiva. Sem medidas de mitigação, essa pressão refletir-se-á nos preços ao consumidor, diminuindo o poder de compra das famílias e alimentando novas pressões inflacionistas.
Outro impacto significativo diz respeito à logística e às cadeias de valor. O agravamento do risco geopolítico já se traduz em custos de transporte marítimo mais elevados e maior volatilidade nos prazos de entrega, afetando tanto exportadores como importadores. Para uma economia aberta como a portuguesa, atrasos e custos adicionais significam perda de competitividade nos mercados internacionais.
Além disso, um conflito prolongado pode afetar o financiamento. O aumento da inflação a nível global poderá levar os bancos centrais a manter taxas de juro elevadas por mais tempo, resultando em crédito mais caro para empresas e famílias. Muitas ainda estão a lidar com os efeitos das crises económicas anteriores.
Neste cenário, a revisão de contas e a certificação da informação financeira tornam-se fundamentais. A revisão legal de contas é agora uma atividade estratégica que assegura a fiabilidade da informação utilizada por gestores, investidores e reguladores na tomada de decisões. Em tempos de tensão, é crucial identificar e quantificar os riscos de mercado, garantir a transparência na divulgação de exposições relevantes e reforçar a governação nas empresas.
Durante períodos de crise, a tentação de adiar o reconhecimento de perdas pode aumentar. É precisamente nestes momentos que a independência dos revisores e a qualidade do relato financeiro são mais exigidas. Uma cultura de controlo e transparência deve ser cultivada para ser eficaz quando a crise chega.
A situação no Irão é, acima de tudo, uma tragédia humana, mas também um choque económico que afeta empresas e famílias em Portugal. Embora não possamos controlar a origem ou o impacto deste choque, podemos gerir a nossa resposta, promovendo uma responsabilidade partilhada entre empresas, o Estado e o sistema financeiro. Se conseguirmos transformar a incerteza em um incentivo para melhorar a governação e a competitividade, Portugal poderá emergir desta crise com uma economia mais forte e menos dependente de energias fósseis.
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Fonte: ECO





