Um recente estudo da ConsumerChoice confirma uma tendência crescente no consumo online em Portugal. Nos últimos dois anos, 63% dos consumidores aumentaram as suas compras pela internet, com 32% a fazê-lo mensalmente. Além disso, 81% dos inquiridos preferem utilizar marketplaces como o seu canal principal de compras. Dados do Instituto Nacional de Estatística projetam que, até 2025, 67,9% da população portuguesa estará a comprar online. Os fatores que mais influenciam as decisões de compra continuam a ser o preço, que afeta 73% dos consumidores, e as promoções, que impactam 71%. A direção deste crescimento é clara e, embora traga conveniência e eficiência, é importante considerar os riscos associados.
A nível global, o comércio eletrónico deverá atingir 7,9 biliões de dólares até 2026, crescendo a um ritmo três vezes superior ao do retalho tradicional. O mercado de inteligência artificial aplicada ao e-commerce está projetado para multiplicar-se por oito até 2035, de acordo com a Precedence Research. A McKinsey estima que, até 2030, entre 3 e 5 biliões de dólares serão movimentados por agentes autónomos, ou seja, inteligências artificiais que pesquisam, comparam e compram em nome dos consumidores. Este cenário não é apenas uma evolução, mas uma potencial substituição.
Um dos principais riscos desta substituição é a perda de contacto direto entre o produtor e o retalhista e o consumidor. Quando plataformas como ChatGPT ou Gemini se tornam a principal interface de compra, as marcas portuguesas podem perder a sua visibilidade e a relação construída com os clientes. As recomendações algorítmicas podem eclipsar marcas que levaram anos a estabelecer a sua reputação, tornando-as invisíveis num mar de alternativas.
Outro risco significativo é a concentração do mercado. Com 81% dos portugueses a preferirem marketplaces, a intermediação da inteligência artificial pode deixar pequenos e médios retalhistas dependentes de poucas plataformas, sujeitando-os a comissões e regras que podem mudar rapidamente. A história já mostrou como a dependência de gigantes tecnológicos pode ser prejudicial, como aconteceu com a imprensa e o setor hoteleiro.
Além disso, a tecnologia que personaliza também pode manipular. A segmentação detalhada permite a aplicação de preços dinâmicos, onde diferentes clientes pagam valores distintos pelo mesmo produto. Esta prática pode aumentar a desconfiança dos consumidores, especialmente quando 67% dos portugueses já expressam receios sobre fraudes nas plataformas online. A literacia digital, embora tenha melhorado, ainda não abrange todas as nuances desta nova realidade.
Por último, é importante considerar a soberania dos dados. Os dados de consumo são uma infraestrutura crítica no século XXI. Quando as transações portuguesas são processadas através de APIs de empresas americanas, estamos a exportar inteligência comercial em tempo real, que alimenta modelos que depois nos são vendidos. A Europa está a debater o AI Act, mas o comércio já está a avançar à frente da regulação.
Embora o comércio eletrónico seja o futuro, é essencial que as empresas portuguesas invistam em dados estruturados e personalização para não se tornarem invisíveis. Esta transição requer uma ambição regulatória europeia mais forte, transparência algorítmica e consciência por parte dos gestores. A tecnologia não é neutra, e o conforto de hoje pode transformar-se na dependência de amanhã. Comprar online é fácil, mas construir um tecido económico que não dependa de quem controla essa compra é o verdadeiro desafio.
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Fonte: Sapo





