Lisboa está a passar por uma transformação significativa no seu modelo urbano. Durante anos, a cidade organizou-se em torno de um centro dominante, onde se concentravam funções, investimentos e dinamismo. Este modelo, embora eficaz, revela agora sinais de saturação, como a pressão sobre o centro histórico, dificuldades de acesso à habitação e uma crescente ineficiência na organização urbana.
A resposta a este contexto não está a ser planeada de forma metódica; está a acontecer de forma orgânica. Lisboa está a evoluir para um modelo policêntrico, onde novos polos estão a ganhar escala, densidade e relevância funcional. Este movimento tem sido amplamente debatido em fóruns como o Salão Imobiliário de Portugal (SIL) e resulta das limitações do modelo urbano anterior.
Contudo, o desenvolvimento urbano nem sempre acompanha esta mudança. Muitos dos novos projetos continuam a seguir uma lógica tradicional, focando-se em programas completos, mistura de usos e qualidade arquitectónica. No entanto, isso não é suficiente para criar verdadeiras centralidades. É necessário garantir densidade adequada, continuidade urbana e a capacidade de gerar fluxos autónomos. Sem esses elementos, os novos projetos podem tornar-se apenas um conjunto eficiente de ativos, sem a vitalidade de uma centralidade.
A criação de uma centralidade é um exercício urbano que vai além do imobiliário. Uma centralidade não se define apenas pelo programa, mas pelo comportamento que gera. Ela funciona quando cria fluxos próprios ao longo do dia, integra diferentes usos de forma orgânica e promove espaços públicos que são realmente utilizados. Em suma, deve funcionar como uma cidade, e não apenas como um projeto isolado.
Este aspecto é particularmente relevante no contexto da cidade dos 15 minutos, que deixou de ser uma ambição e se tornou uma exigência implícita. Algumas áreas da cidade estão mais preparadas para se tornarem novas centralidades, especialmente aquelas com elevada acessibilidade e potencial de transformação. Locais historicamente vistos como nós de infraestruturas começam a reunir condições únicas para assumir um novo papel urbano.
O eixo de Entre Campos é um exemplo claro dessa transição. Durante décadas, foi apenas um ponto de passagem, mas atualmente apresenta características que lhe conferem potencial para se afirmar como um polo com massa crítica própria. Esta mudança não resulta de intenções isoladas, mas de uma lógica territorial que se impõe.
O verdadeiro teste para a criação de centralidades não reside apenas no desenho dos projetos, mas no tempo e na validação do seu funcionamento. Sem densidade suficiente, diversidade funcional e apropriação pela cidade, mesmo os projetos mais ambiciosos podem falhar em alcançar o seu objetivo urbano. Eles podem funcionar como ativos, mas não como uma verdadeira cidade.
Lisboa já se transformou, mas o desenvolvimento ainda não acompanhou essa mudança. Embora a cidade não seja, na prática, monocêntrica, muitos dos projetos continuam a ser pensados como se o fossem. O desafio para os próximos anos será garantir que os projetos certos evoluam para centralidades reais, capazes de gerar uma vida urbana autónoma, consistente e duradoura.
No final, a diferença não estará apenas na escala ou no investimento, mas na capacidade de criar cidade. Leia também: O futuro do imobiliário em Lisboa.
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Fonte: Sapo





