Jornalismo em crise: Seguro alerta para pressão sem precedentes

O Presidente da República, António José Seguro, alertou esta quarta-feira que o jornalismo enfrenta a maior pressão das últimas décadas. Durante o discurso de encerramento do Festival ECO, realizado no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Seguro sublinhou o impacto das redes sociais e da inteligência artificial na sustentabilidade dos meios de comunicação e na qualidade da democracia.

“A comunicação social é um pilar das democracias. Sem jornalismo livre não há escrutínio do poder, não há debate de qualidade, nem cidadãos bem informados para tomar decisões”, afirmou. O Chefe de Estado elogiou os dez anos do ECO, mas reconheceu que fazer jornalismo económico tornou-se uma tarefa cada vez mais complexa num mundo dominado por algoritmos e pela luta pela atenção do público. “Hoje, o jornalismo não compete apenas com outros meios de comunicação, mas com tudo”, acrescentou.

Seguro destacou que as plataformas digitais fragmentaram as audiências e destruíram modelos de negócio tradicionais, entregando a distribuição de informação a algoritmos que não conseguem distinguir entre verdade e mentira, mas que priorizam o que gera emoção. “Privilegiam, sistematicamente, a emoção”, criticou.

O Presidente também alertou que a inteligência artificial agravou esta situação, permitindo a produção de conteúdo em larga escala, a simulação de vozes, a criação de imagens e a personalização de campanhas de desinformação com uma precisão sem precedentes. “Tudo isto resulta numa perda de audiências e de receitas diretas para jornais, rádios e televisões. Sem receitas de qualidade, é muito mais difícil fazer jornalismo de qualidade”, frisou.

Recorrendo ao escritor Milan Kundera, Seguro argumentou que a aceleração tecnológica está associada ao esquecimento e defendeu um jornalismo “mais humano” e “mais contextualizado”. “Mais lento quando a velocidade distorce”, resumiu.

O Presidente sustentou que a resposta dos meios de comunicação não deve ser a de “baixar o padrão”, mas sim a de “elevar a ambição”. Fez um apelo ao país para que decida “o que quer fazer para ter jornalismo livre e plural”, sublinhando que “a qualidade da nossa democracia depende da qualidade do jornalismo que é feito”.

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Além do tema do jornalismo, Seguro abordou três mudanças culturais essenciais para o futuro do país: a construção de uma cultura de confiança, a superação da política de culpabilização permanente e a aposta na organização. Lamentou que os portugueses confiem menos uns nos outros do que os cidadãos da maioria dos países europeus, o que limita a criação de empresas e projetos coletivos. “Com confiança, há parcerias. Com parcerias, há escala. Com escala, há competitividade”, afirmou.

Criticou ainda a tendência de procurar culpados em vez de soluções, considerando que “este jogo de culpas é um desperdício monumental de energia, tempo e recursos”. Seguro deixou uma mensagem aos órgãos de comunicação social, afirmando que o modelo de cobertura centrado no conflito “amplifica exatamente a dinâmica que nos paralisa”.

“O jornalismo pode ser parte do problema. E pode ser, como o ECO tantas vezes é, parte da solução”, concluiu.

Na reta final da sua intervenção, Seguro apelou a uma mudança de mentalidade coletiva para construir “o país justo e de excelência” que os portugueses desejam. “O país que queremos não nos vai acontecer. Temos de o fazer acontecer”, finalizou.

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Fonte: ECO

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