Inteligência Artificial e jornalismo: uma relação complexa

A Inteligência Artificial (IA) está a transformar o panorama do jornalismo, mas a forma como este se financia continua a ser um tema de debate aceso. A questão não se resume a uma dicotomia entre entusiastas da tecnologia e defensores de um passado que não volta. O verdadeiro desafio reside em determinar se a nova economia da informação será construída sobre inovação e responsabilidade ou se será apenas uma captura gratuita do trabalho que outros pagaram para produzir.

No ECO, estamos convictos de que a IA é uma ferramenta que pode enriquecer o jornalismo. A tecnologia já está presente nas nossas redações e promete mudar profissões e modelos de negócio, permitindo uma investigação mais aprofundada e o tratamento de dados de forma mais eficiente. Com a criação da marca .IA, liderada por Flávio Nunes, estamos a trabalhar com vários parceiros para explorar as possibilidades que a IA oferece.

Contudo, utilizar a IA de forma eficaz não implica aceitar a narrativa económica que a sustenta. O publisher do New York Times, A. G. Sulzberger, alerta para os perigos de uma economia da informação que ignora o valor do trabalho jornalístico. O seu recente ensaio destaca que, enquanto a IA pode amplificar o jornalismo, o modelo atual da indústria não remunera adequadamente os criadores de conteúdo. Estima-se que menos de 0,5% do investimento em IA nos Estados Unidos reverte para os produtores de informação, um dado alarmante que se agrava na Europa.

A história do jornalismo já conheceu transferências de valor semelhantes. A internet, por exemplo, desviou uma parte significativa da receita publicitária dos publishers para as plataformas digitais. Embora houvesse uma troca, mesmo que assimétrica, a situação atual com a IA generativa é mais preocupante. Os utilizadores obtêm respostas instantâneas sem consultar as fontes originais, o que resulta numa perda de conexão entre o leitor e o jornalismo.

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Além disso, as grandes empresas de tecnologia estão a contratar jornalistas para que os seus modelos de IA consigam replicar critérios editoriais e a linguagem da verificação. Esta apropriação do jornalismo, sem assumir os custos e responsabilidades inerentes, é uma forma de captura mais subtil e difícil de combater. Se as plataformas desejam competir com o jornalismo, devem criar o seu próprio conteúdo, em vez de se apropriarem do trabalho alheio.

Para um jornal como o ECO, que opera num mercado pequeno e numa língua com escala limitada, a desigualdade é ainda mais acentuada. Não temos os recursos para financiar litígios ou impor condições em negociações com gigantes da tecnologia. Se o jornalismo económico em português for tratado como uma matéria-prima gratuita, o resultado será uma diminuição do número de jornalistas, menos investigação e um escrutínio reduzido sobre decisões que afetam os leitores.

Investimos há uma década em jornalismo de qualidade, porque acreditamos que, para vender jornalismo, é preciso fazer jornalismo. Os leitores do ECO confiam em informações verificadas e contextualizadas, e a responsabilidade dos jornalistas é fundamental. A cadeia de responsabilidades no jornalismo é um pilar que não deve ser subestimado, pois a sua erosão pode acontecer de forma gradual e quase imperceptível.

Os anunciantes que preferem plataformas globais aos meios locais devem ter consciência das consequências a longo prazo das suas escolhas. Estão a contribuir para a concentração do poder nas mãos de quem não produz informação e não responde perante os leitores. A dependência das plataformas pode resultar em prejuízos para todos os envolvidos.

Por fim, a questão da propriedade intelectual não deve ser vista como um resquício do passado, mas como uma ferramenta essencial para garantir um mercado aberto e competitivo. A inovação não deve ser sinónimo de apropriação do trabalho alheio sem consentimento. A mudança na economia da informação depende não só das empresas jornalísticas e dos jornalistas, mas também das escolhas dos leitores e dos investidores.

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Fonte: ECO

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