Fuga de capital europeu para os EUA: o que está a acontecer?

A fuga de capital da Europa para os Estados Unidos tem sido um tema recorrente entre investidores e analistas. Thijs Povel, especialista em capital de risco e líder da plataforma Dealflow.eu, destaca que a maior parte da poupança-reforma europeia já está a financiar a inovação norte-americana. Em entrevista ao Jornal Económico, Povel explica as razões por trás deste fenómeno e os dados que o sustentam.

Os números são impressionantes. Em 2023, os fundos de pensões dos EUA investiram mais de 11 vezes o montante alocado pelos europeus em capital de risco. Em 2022, as empresas de capital de risco norte-americanas destinaram cerca de 190 mil milhões de dólares a startups, enquanto na Europa esse valor foi de apenas 19 mil milhões de euros. Esta discrepância levanta questões sobre a alocação de recursos e a eficácia dos investimentos na Europa.

Povel salienta que a situação é mais complexa do que uma simples fuga de capital. Não se trata de fundos de pensões europeus a retirar investimentos de capital de risco na Europa para os transferir para os EUA. A realidade é que existe uma subexposição estrutural ao capital de risco na Europa, com montantes reduzidos a serem desproporcionalmente direcionados para gestores norte-americanos. Os dados revelam que os fundos de pensões europeus gerem cerca de 9 biliões de euros em ativos, dos quais apenas 0,01% a 0,02% são alocados a capital de risco europeu.

A comparação com os EUA é alarmante. Os fundos de pensões norte-americanos alocam cerca de 2% do total dos seus ativos a capital de risco, enquanto os europeus apenas 0,02%. Esta diferença de 100 vezes reflete uma estrutura que favorece o investimento em capital de risco nos EUA. Além disso, os fundos de pensões dos EUA representam mais de 50% de todo o investimento em private equity e capital de risco nos Estados Unidos, enquanto na Europa essa participação é insignificante.

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A questão regulatória é um dos principais fatores que contribuem para esta situação. As regras que regem os fundos de pensões europeus tornam difícil a sua presença em fundos de capital de risco, direcionando a maior parte do capital para ativos líquidos, frequentemente denominados em dólares. Povel menciona três problemas principais: a ausência de um equivalente europeu ao “homem prudente” da legislação norte-americana, a rigidez da Solvência II e a fragmentação regulamentar entre os diferentes países europeus.

Além das questões regulatórias, a escala dos fundos de capital de risco nos EUA é um fator determinante. Desde 2013, foram angariados 137 fundos de capital de risco com mais de mil milhões de dólares nos EUA, comparados a apenas 11 na UE. Esta diferença torna-se ainda mais evidente nas rondas de investimento, onde os valores captados pelas startups americanas superam significativamente os europeus.

A cultura de risco também desempenha um papel importante. A experiência acumulada ao longo de décadas nos EUA em relação ao capital distribuído e ao capital realizado faz com que os investidores institucionais se sintam mais seguros ao alocar recursos a gestores de fundos norte-americanos, em detrimento de opções europeias.

Em suma, a fuga de capital da Europa para os EUA não é apenas uma questão de preferência, mas sim uma consequência de uma série de fatores estruturais e regulamentares. A poupança-reforma europeia, que poderia ser um motor de inovação no continente, acaba por financiar a inovação norte-americana. Para uma análise mais aprofundada, leia também: “Os desafios do capital de risco na Europa”.

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Fonte: Sapo

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