Touro bravo: aliado da biodiversidade e agricultura em Portugal

Nos últimos anos, o debate sobre a tauromaquia tem-se concentrado principalmente nas arenas, mas a importância do touro bravo em Portugal vai muito além disso. A questão não é apenas cultural; é também ambiental, económica e social. O futuro do touro bravo está intimamente ligado ao montado português, um dos ecossistemas mais ricos e sustentáveis da Europa.

Portugal possui cerca de um milhão de hectares de montado, um sistema agro-silvo-pastoril único que resulta da interação entre a atividade humana e a natureza. Este ecossistema é reconhecido internacionalmente pelo seu Alto Valor Natural, abrigando uma biodiversidade extraordinária e contribuindo para o combate às alterações climáticas. O touro bravo desempenha um papel crucial neste contexto.

A criação do touro bravo está associada a aproximadamente 100 mil hectares de montado e pastagens extensivas, gerando milhares de postos de trabalho diretos e indiretos. Além do seu valor cultural, o touro bravo é um instrumento eficaz de gestão territorial, combate ao abandono rural e preservação da biodiversidade. Com a União Europeia a reforçar a sustentabilidade da pecuária, o modelo produtivo do touro bravo destaca-se como um exemplo de compatibilidade entre atividade económica e conservação da natureza.

Estudos recentes sobre agricultura regenerativa apontam o montado e a dehesa como modelos de referência para o futuro da pecuária na Europa. A valorização destes sistemas, incluindo as explorações de touro bravo, é defendida por várias contribuições científicas que reconhecem o seu papel na biodiversidade, armazenamento de carbono e prevenção de incêndios rurais.

A crescente valorização dos serviços dos ecossistemas nas políticas europeias reforça a importância das explorações de touro bravo como produtoras de bens públicos ambientais. A Comissão Europeia reconhece que os sistemas pecuários extensivos desempenham um papel fundamental na conservação dos solos e na coesão das comunidades rurais. O montado português é um exemplo paradigmático dessa visão, sendo um sistema produtivo e um reservatório de biodiversidade.

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Ao contrário da maioria das produções pecuárias modernas, o touro bravo vive entre quatro e cinco anos em regime extensivo, percorrendo pastagens naturais. Este estilo de vida, com pouca intervenção humana, está alinhado com os princípios da agricultura regenerativa, que busca restaurar solos e promover a biodiversidade. As ganadarias de touros bravos são, assim, um dos mais antigos exemplos de agricultura regenerativa na Península Ibérica.

Os benefícios ecológicos são claros. As áreas ocupadas por ganadarias de bravo servem como refúgios para várias espécies de fauna e flora, incluindo espécies emblemáticas como o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica. A gestão proporcionada por estas explorações é vital para evitar o abandono e a degradação dos habitats.

Além disso, o montado presta serviços ambientais valiosos, como a captura de carbono e a prevenção de incêndios. Estes benefícios são essenciais para todos os portugueses, embora raramente sejam reconhecidos. A União Europeia discute cada vez mais mecanismos de pagamento pelos serviços dos ecossistemas, e as ganadarias de bravo estão totalmente integradas nesta lógica.

Outro aspecto importante é o bem-estar animal. O debate público tende a focar-se apenas nos momentos em que o touro está em praça, mas é crucial considerar todo o ciclo de vida do animal. O touro bravo vive em liberdade, em condições naturais, e a sua criação é regulada por legislação rigorosa.

A criação do touro bravo também sustenta uma vasta rede de atividades económicas no mundo rural, gerando emprego e contribuindo para a fixação da população em regiões com poucas oportunidades. Sem a atividade associada ao touro bravo, muitas explorações agro-silvo-pastoris perderiam viabilidade económica, aumentando o risco de abandono.

A discussão sobre a tauromaquia continuará a existir, mas não se pode ignorar a realidade de que o touro bravo é fundamental para a biodiversidade e a agricultura regenerativa em Portugal. A preservação das ganadarias de bravo deve ser vista como uma questão de política agrícola e ambiental, alinhada com os objetivos europeus de sustentabilidade.

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Defender o touro bravo é, portanto, defender a natureza, o território e o futuro de Portugal.

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Fonte: Sapo

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