A atual crise de segurança energética na Europa é sem precedentes. A sucessão de eventos geopolíticos recentes expôs as fragilidades do continente em relação ao acesso a recursos energéticos e à sua posição no cenário diplomático. A Europa, incapaz de estabelecer alianças políticas eficazes e de antecipar riscos globais, tornou-se vulnerável a um destino geopolítico que não controla. A segurança energética deixou de ser uma questão meramente técnica ou ambiental, passando a ser um elemento central da sua geopolítica.
A noção de que a geopolítica se traduz na “geopolítica da energia” é apoiada por dados concretos. Em 2025, o investimento global em energia atingiu um recorde de 3,3 biliões de dólares, com dois terços desse valor direcionados para energias limpas. A energia solar destaca-se como a principal fonte de crescimento da procura energética mundial. A relação entre o acesso à energia e os índices de desenvolvimento humano é clara, e a pobreza energética, que não se limita a países em desenvolvimento, é uma preocupação social crescente. O controlo das cadeias de valor das energias renováveis, como painéis solares e turbinas eólicas, molda os alinhamentos estratégicos do século XXI.
Neste contexto, a União Europeia (UE) procura diversificar as suas fontes de abastecimento, acelerando o desligamento do gás russo e promovendo as energias limpas como pilar da sua estratégia geopolítica e industrial. A urgência em garantir segurança energética em crises globais elevou a transição energética a uma resposta estrutural à vulnerabilidade histórica da Europa.
É aqui que surge a oportunidade de redefinir a relação entre Europa e África. O continente africano possui vastos recursos para energias renováveis, um enorme potencial para a produção de hidrogénio renovável a custos competitivos e reservas significativas de minerais críticos. A sua proximidade geográfica e cultural com a Europa torna a escolha de África como parceiro estratégico na nova geopolítica da energia inquestionável.
Embora a cooperação entre a Europa e África tenha avançado diplomaticamente, como demonstrado na 7.ª Cimeira UE-UA, onde foram assumidos compromissos em matéria de energias limpas, ainda existem hesitações em outros níveis. É fundamental rever o paradigma que sustenta esta cooperação e afastar dilemas desnecessários.
Historicamente, África tem sido uma exportadora de matérias-primas sem beneficiar do valor acrescentado da sua transformação. A cooperação na transição energética deve ser vista de forma diferente, baseada na igualdade e no respeito mútuo. A UE precisa de conquistar a confiança de África, o que implica uma colaboração genuína que ofereça às nações africanas o que realmente necessitam, como transferência de tecnologia, industrialização, criação de emprego e proteção climática. Sem isso, a ambição europeia de integrar África na sua estratégia energética corre o risco de falhar.
A estratégia da UE para a cooperação energética com África tem-se estruturado em três vetores principais: o REPowerEU, que visa eliminar a dependência do gás russo; o Global Gateway, que mobiliza 150 mil milhões de euros para investimentos em África; e o Pacto da Indústria Limpa, que integra segurança energética, competitividade industrial e descarbonização. No entanto, persistem lacunas entre a ambição e a realidade, que precisam de ser preenchidas com criatividade e visão estratégica.
Portugal, com os seus laços históricos e culturais com países africanos, tem um papel potencialmente crucial nesta nova dinâmica. O país deve assumir-se como um ator geopolítico ativo, capaz de implementar estratégias energéticas em colaboração com África, através de mediação diplomática e transferência de tecnologia. A sua posição privilegiada na transição energética é um ativo a ser valorizado.
A janela de oportunidade para a geopolítica africana está a fechar-se rapidamente, à medida que a competição entre potências por influência no continente aumenta. É imperativo que a Europa e África aproveitem esta oportunidade antes que seja tarde demais.
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Fonte: Sapo





