China proíbe romances com IA e gera luto digital

A China tomou uma medida drástica ao proibir romances com inteligência artificial (IA), afetando milhares de utilizadores que mantinham relações virtuais. Esta nova regulamentação, em vigor desde 15 de julho, foi implementada pela Administração do Ciberespaço da China (CAC) e faz parte de um conjunto mais amplo de regras sobre serviços de IA generativa.

Pela primeira vez, um país decidiu proibir aplicativos que funcionam como “parceiros românticos virtuais”. As orientações são claras: sistemas de IA não devem “induzir dependência emocional”, “substituir relações humanas reais” ou “estimular comportamentos viciantes”. Além disso, está vedada qualquer interação romântica com menores. Esta decisão surge num contexto demográfico crítico, onde a China registou em 2025 uma taxa de natalidade de apenas 6,4 nascimentos por mil habitantes, a mais baixa da sua história recente.

As autoridades chinesas associam a queda na natalidade e nos casamentos ao aumento das relações digitais, onde a IA se apresenta como uma alternativa emocional sem os custos sociais e económicos de um relacionamento tradicional. Com a proibição, muitas plataformas que permitiam criar companheiros virtuais, capazes de expressar afeto e manter conversas íntimas, foram desativadas ou limitadas, levando a um impacto psicológico significativo.

Relatos citados pela Bloomberg indicam que muitos utilizadores enfrentaram um verdadeiro luto digital após perderem os seus “companheiros” virtuais, com algumas relações a serem mantidas durante meses ou até anos. Psicólogos chineses alertam que esses vínculos ativam mecanismos de apego semelhantes aos das relações humanas, especialmente entre jovens adultos e utilizadores socialmente isolados. Estudos na área da psicologia digital revelam que interações prolongadas com IA antropomórfica podem reforçar padrões de dependência emocional, reduzir competências sociais e aumentar sentimentos de solidão quando essas relações são interrompidas.

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Na Europa, o fenómeno dos romances com IA também está a crescer, embora em menor escala e com um enquadramento regulatório mais rigoroso. Plataformas como ChatGPT ou Gemini oferecem interações conversacionais, mas evitam a simulação explícita de relações românticas exclusivas. No entanto, estudos europeus sugerem que entre 5% a 10% dos utilizadores mais intensivos desenvolvem algum grau de ligação emocional com essas ferramentas.

A decisão da China pode antecipar tendências globais. Ao limitar a IA que imita relações humanas, Pequim não está apenas a regular a tecnologia, mas também a tentar reconfigurar comportamentos sociais. Resta saber se esta proibição será eficaz na resolução dos problemas demográficos ou se apenas deslocará a dependência emocional para outras formas digitais menos visíveis.

Leia também: O impacto da IA nas relações sociais contemporâneas.

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Fonte: Sapo

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