A Fundação Gulbenkian, uma das instituições culturais mais influentes de Portugal, celebra 70 anos de atividade, marcada por um impacto significativo na sociedade, apesar de algumas polémicas. António Barreto, sociólogo e investigador, avaliou o percurso da fundação em entrevista à agência Lusa, destacando a sua capacidade de “fazer o que faz falta” ao país.
Desde a sua criação em 1950, a Fundação Gulbenkian tem demonstrado uma orientação estratégica clara, evitando a dispersão de esforços e focando-se nas áreas onde Portugal apresentava maiores fragilidades. Barreto sublinha que essa abordagem foi “muito bem conseguida”, permitindo à fundação construir a sua relevância ao longo das décadas. A instituição adaptou-se às transformações da sociedade portuguesa, especialmente no que diz respeito ao papel crescente do Estado e do setor privado no financiamento cultural.
Embora o investimento na cultura tenha mudado, a Fundação Gulbenkian continua a ser relevante, especialmente nas áreas do museu e da orquestra. Barreto, que tem uma longa ligação à instituição, recorda que a fundação tem sabido integrar contributos externos, envolvendo especialistas de diversas áreas no seu processo de decisão. Essa abertura permitiu à Gulbenkian organizar conferências internacionais que contribuíram para o debate público em Portugal, especialmente nas áreas da economia e da integração europeia.
Contudo, a trajetória da Fundação Gulbenkian não foi isenta de controvérsias. A extinção do Ballet Gulbenkian em 2005 gerou forte contestação, mas a polémica foi atenuada com a criação de medidas compensatórias, como o Prémio Salavisa, que apoia criadores na área da dança. Barreto também menciona tensões internas durante a direção de Penelope Curtis, que criticou a falta de consulta à equipa do museu em decisões importantes.
Outro ponto de crítica surgiu da ligação da fundação ao petróleo, através da Partex, levando a um apelo por parte de ativistas para que abandonasse investimentos em energias fósseis. A fundação respondeu a estas preocupações com a venda da empresa e uma reorientação estratégica para a sustentabilidade, incluindo a criação do Prémio Gulbenkian para a Humanidade, que reconhece contributos na área ambiental.
A construção do novo Centro de Arte Moderna também suscitou reservas, com Barreto a expressar a sua insatisfação pela forma como se perdeu parte do jardim. No entanto, ele acredita que a fundação tem conseguido suavizar os problemas, o que contribui para a sua estabilidade.
Uma das discussões mais persistentes na Fundação Gulbenkian é a definição da sua identidade: deve ser um organismo português que trabalha com o resto do mundo ou um organismo global que opera em Portugal? Barreto defende que a fundação deve priorizar a sua ação em Portugal, mantendo uma dimensão internacional nas áreas da ciência e da cultura.
“É neste equilíbrio entre a capacidade de resposta às necessidades do país e a adaptação às mudanças, mesmo quando atravessada por polémicas, que reside a singularidade da Fundação Gulbenkian no panorama português”, conclui António Barreto.
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Fonte: Sapo





