A construção em Portugal enfrenta desafios estruturais que se tornaram habituais, como atrasos, derrapagens de custos, escassez de mão-de-obra, desperdício e baixa produtividade. Obras públicas frequentemente acumulam revisões de prazo, enquanto empreendimentos privados veem os custos finais a ultrapassar as previsões iniciais. Neste cenário, a industrialização da construção surge como uma proposta cada vez mais relevante. No entanto, a questão que se coloca é se esta abordagem representa uma solução real ou se é apenas uma promessa otimista.
A resposta a esta questão depende menos da tecnologia em si e mais da disposição do setor para abraçar a mudança. A industrialização da construção não se resume à produção de módulos em fábricas; implica uma reavaliação do processo construtivo, com um foco maior no planeamento, na engenharia, na integração entre especialidades, no controlo de qualidade e na previsibilidade de prazos e custos. Por exemplo, é essencial que todas as decisões de projeto sejam tomadas antes do início da obra, desde a localização das instalações técnicas até aos sistemas construtivos, de modo a evitar alterações durante a construção que resultem em atrasos e custos adicionais. Além disso, a colaboração entre projetistas, fabricantes e construtores deve ser estabelecida desde o início, algo que ainda é raro em Portugal.
As vantagens da industrialização da construção são claras: maior rapidez na execução, redução de desperdícios, melhor controlo de qualidade, maior segurança, menor dependência das condições meteorológicas e um potencial de sustentabilidade elevado. Em países como a Suécia e a Holanda, a utilização de sistemas industrializados tem demonstrado a capacidade de reduzir significativamente os prazos de construção e de aumentar a consistência da qualidade final. Num setor que enfrenta uma escassez de recursos humanos qualificados, esses benefícios tornam-se ainda mais relevantes.
Contudo, a industrialização da construção não é uma solução automática. Este modelo exige decisões mais ágeis, o que contrasta com os longos processos de licenciamento que podem demorar anos. Além disso, requer projetos muito mais detalhados, uma vez que muitas vezes se avança para a obra com informações incompletas. A coordenação rigorosa é fundamental num setor que ainda apresenta fragmentação. Também é necessário adaptar os modelos de financiamento: ao contrário da construção tradicional, onde o investimento é faseado, a industrialização implica custos mais elevados no início, devido à produção em fábrica e logística, o que pode não ser compatível com o financiamento bancário atual.
A diferença entre uma solução e uma ilusão reside precisamente aqui. A industrialização da construção será uma solução quando houver uma estratégia clara, planeamento adequado e integração entre os diversos intervenientes. Por outro lado, será uma ilusão se for encarada como uma moda passageira, um argumento comercial ou uma tentativa de aplicar sistemas industrializados a projetos concebidos para métodos tradicionais, o que frequentemente resulta em ineficiências e custos adicionais.
O futuro da construção não será totalmente industrializado, mas será, sem dúvida, muito mais industrializado do que é hoje. Esta mudança não é uma tendência, mas uma necessidade, impulsionada pela escassez de mão-de-obra, pela pressão para reduzir custos e pela crescente exigência de sustentabilidade e eficiência.
A industrialização da construção não é uma ilusão. A verdadeira ilusão reside na crença de que este modelo pode funcionar sem uma mudança na forma de pensar, projetar e construir. E o tempo para essa mudança já era.
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Fonte: Sapo





