A 61.ª Bienal de Arte de Veneza abriu as suas portas ao público, mas não sem antes ser palco de uma polémica que culminou na demissão do júri internacional. Este evento, que reúne 100 pavilhões nacionais e 111 participantes na sua exposição geral, viu a sua credibilidade abalada por questões políticas.
A crise teve início a 23 de abril, quando o júri, liderado pela curadora brasileira Solange Oliveira Farkas, anunciou um boicote sem precedentes. A decisão de excluir da atribuição de prémios países cujos líderes fossem acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional visava diretamente Israel e Rússia. Esta abordagem trouxe uma nova dimensão política a um evento que tradicionalmente se foca na arte.
A reação à decisão do júri foi imediata, com a Fundação da Bienal e o governo italiano a defenderem a neutralidade institucional e a rejeitarem qualquer forma de censura. A organização enfatizou que a Bienal de Veneza deve ser um espaço aberto à participação internacional, distanciando-se da controvérsia gerada pela decisão do júri. As divergências internas e as pressões políticas aumentaram, levando à demissão coletiva dos cinco membros do júri a 30 de abril, apenas nove dias antes da inauguração.
Com a falta de um júri, a entrega do Leão de Ouro foi adiada para o final da exposição. Em vez disso, a organização introduziu um novo modelo de participação, os “Leões dos Visitantes”, que permite ao público votar nos melhores pavilhões e artistas. Este formato inédito reflete a tentativa de democratizar o processo de premiação, mas também evidencia a crise de confiança que a Bienal de Veneza enfrenta.
A Comissão Europeia também se manifestou sobre a participação da Rússia, ameaçando que o financiamento da União Europeia poderia estar em risco se a decisão se mantivesse. Apesar de nunca ter proibido a presença russa, o país esteve ausente nas edições de 2022 e 2024, e este ano apresenta o projeto “The tree is rooted in the sky”, que reúne cerca de 40 artistas.
Israel, por sua vez, apresenta o pavilhão “Rose of Nothingness”, com o artista Belu-Simion Fainaru. A Bienal, sob o tema “In Minor Keys” e com a curadoria de Koyo Kouoh, terá ainda 31 eventos paralelos até 22 de novembro, data em que serão atribuídos os prémios.
Portugal está representado pelo projeto “RedSkyFalls”, do artista Alexandre Estrela, que expressou a sua oposição à participação da Rússia e de Israel, manifestando solidariedade com os povos oprimidos. Estrela é um dos signatários de uma carta aberta promovida pela Aliança Arte Não Genocídio, que pede a exclusão de Israel do evento.
A presença de artistas portugueses na Bienal de Veneza estende-se a várias exposições paralelas, incluindo a de Pedro Cabrita Reis, que revisita a Via Sacra, e Marita Setas Ferro, que apresenta o projeto “The Echoes of Things from Nature”. A Bienal de Veneza, apesar das controvérsias, continua a ser um espaço de reflexão e diálogo sobre a arte contemporânea.
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Fonte: ECO





