Um novo relatório da Allianz Research alerta que as ondas de calor, que antes eram consideradas fenómenos sazonais, transformaram-se num risco económico estrutural. Este fenómeno tem um impacto significativo na produtividade, no investimento, nas contas públicas e na inflação, especialmente na Europa.
O estudo estima que, num cenário de calor extremo repetido entre 2026 e 2030, as perdas acumuladas de PIB poderão atingir entre 5% a 7% nas economias mais expostas. Entre os países mais afetados estão Espanha, Itália, França e Alemanha, que enfrentam as maiores penalizações em termos absolutos. Por exemplo, a França poderá sofrer uma perda de 240 mil milhões de dólares, enquanto a Alemanha perderá 131 mil milhões, a Itália 147 mil milhões e a Espanha 120 mil milhões.
Em todos os países onde o calor extremo causa perdas económicas, a diminuição da formação de capital fixo supera a redução do consumo privado. No caso de Portugal, a queda no consumo é de 1,9%, mas os investimentos caem 6%. Na Itália, as perdas de consumo ascendem a 4,2%, enquanto os investimentos colapsam em 12,8%. França e Eslováquia são as mais afetadas, com quedas de investimento de 14,7% e perdas de consumo de 5,9% e 6,5%, respetivamente.
Esta discrepância entre consumo e investimento reflete um mecanismo amplificador: à medida que o stress térmico reduz a produção potencial e comprime as margens das empresas, o retorno esperado sobre novos investimentos diminui, desincentivando o investimento. Nos países mais quentes, como a Chéquia, Alemanha, Espanha, Portugal, Grécia, Japão, França, Itália e Eslováquia, tanto os preços como o desemprego seguem uma tendência negativa, caracterizando uma perturbação do lado da oferta.
O relatório também destaca que o choque económico não se limita ao curto prazo. A queda no investimento em capital fixo será superior à redução do consumo, criando um obstáculo adicional ao crescimento futuro. A Allianz identifica um ponto crítico em torno dos 30°C, acima do qual os danos económicos do calor se intensificam rapidamente. Acima desse limiar, a produtividade por hora diminui cerca de 1,3 dólares por cada grau adicional, enquanto a procura de energia aumenta, pressionando os custos das empresas e os preços para os consumidores.
As consequências financeiras recaem, em particular, sobre as economias menos preparadas para absorver esses impactos. O relatório estima que as perdas de receita fiscal podem chegar a 1,8% em França, 1,3% em Itália e Espanha, e 0,7% na Alemanha. Isso se deve, em parte, ao facto de que os sistemas fiscais progressivos fazem com que as receitas caiam mais rapidamente do que a produção, amplificando o efeito negativo sobre as finanças públicas.
Além disso, os governos enfrentam um aumento nos gastos com saúde, emergências e reparação de infraestruturas, o que pode agravar os saldos orçamentais em cerca de 0,5% do PIB anualmente. Itália e Espanha podem ultrapassar o limite de défice de Maastricht quando se contabilizam os custos associados ao calor extremo.
A Allianz destaca que a Europa é particularmente vulnerável devido ao envelhecimento da população, ao desenho urbano que retém calor e à baixa penetração de ar condicionado, que é apenas de 19% na Europa, comparado com cerca de 90% nos Estados Unidos. O relatório também aponta que os eventos de calor extremo se multiplicaram por sete desde os anos 1980, com a média de mortes por evento a aumentar cinco vezes.
As perdas seguradas representam apenas uma pequena fração dos danos totais, refletindo uma incompatibilidade estrutural entre o que o calor destrói e o que o seguro convencional cobre. Em 2022, as perdas climáticas totais na Europa ascenderam a 46 mil milhões de euros, enquanto a parte segurada aumentou apenas marginalmente. A maior parte dos danos causados pelo calor resulta em mortalidade excessiva, perda de horas de trabalho e pressão sobre o sistema de saúde, que não são adequadamente cobertos pelos contratos de indemnização.
A Allianz conclui que a resposta europeia ainda está demasiado focada em compensar perdas, em vez de preveni-las. Entre as medidas sugeridas estão limites de temperatura mais claros no trabalho, regras automáticas para suspensão de atividades, melhor proteção para trabalhadores sazonais e precários, normas para edifícios que reduzam o sobreaquecimento e um planeamento mais eficaz da rede elétrica durante o verão. O relatório defende também que as estratégias nacionais de adaptação devem ter financiamento plurianual e que parte da poupança das famílias seja direcionada, com garantias públicas, para a melhoria da eficiência energética e refrigeração.
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calor extremo Nota: análise relacionada com calor extremo.
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Fonte: Sapo





