Kamel Daoud, escritor e jornalista franco-argelino, partilhou a sua visão sobre a literatura e a realidade durante a sua passagem por Lisboa, onde participou no Choix Goncourt du Portugal. As suas obras, que incluem “Meursault, contra-investigação” e “Huris”, estão proibidas na Argélia, país que o viu nascer. Daoud, que se exilou em França, considera a sua cidadania francesa como um símbolo de liberdade.
Durante a conversa, Daoud abordou a relação da sociedade com a tecnologia e a leitura. Para ele, a tecnologia tem um impacto negativo na leitura, mas o mais preocupante é a falta de compaixão que isso pode gerar. Apesar de um discurso que poderia parecer pessimista, Daoud mantém a esperança de que, com o tempo, surgirão regulamentos para lidar com os desafios da internet e das redes sociais. Ele acredita que, embora a tecnologia traga convulsões, também pode levar a avanços.
Daoud também falou sobre a geopolítica e as guerras, afirmando que se proíbe de comentar sobre conflitos que não viveu. Ele recordou a guerra civil argelina e a forma como as narrativas podem ser distorcidas. Para ele, a literatura é uma forma de explorar a complexidade da condição humana e de entender as diferentes realidades que existem em torno de conflitos, como o do Irão e da Palestina.
A questão da liberdade de expressão na literatura é outro tema que Daoud abordou. Ele alertou para as ameaças que a ficção enfrenta, nomeadamente o populismo e a proliferação de informações falsas. Na Argélia, Daoud foi condenado a três anos de prisão por um romance e, mais recentemente, uma nova lei proíbe a escrita sobre a guerra da independência do país. Esta situação leva a um ambiente de medo que pode silenciar vozes importantes.
Para os jovens escritores, Daoud deixa um conselho claro: “Quando tens uma pergunta sem resposta, escreve um romance.” Ele acredita que uma boa história surge da busca por respostas a questões complexas. O autor também partilhou uma reflexão sobre a liberdade que encontrou na Europa, contrastando com a repressão que observou na Argélia.
Por fim, Daoud destacou a importância da liberdade de viajar e como isso enriquece a experiência humana. Ele vê a capacidade de viajar como uma das maiores conquistas da Europa, embora reconheça as dificuldades enfrentadas por muitos imigrantes que tentam cruzar fronteiras.
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Fonte: Sapo



