Impulsos humanos e o decrescimento: uma reflexão necessária

A proposta do economista francês Thomas Piketty sobre o decrescimento planeado, selectivo e equitativo reacende debates sobre o papel do Estado e o impulso natural de crescimento. No entanto, muitos críticos parecem ver o crescimento humano apenas através da lente da produção e do consumo, que é o foco da proposta de Piketty. Esta visão, embora relevante, ignora outras dimensões do impulso humano que são igualmente importantes.

O impulso de crescer não se limita à acumulação de bens. Existem outros impulsos fundamentais, como a manutenção da sobrevivência, a autopreservação, a reprodução, a pertença social, o estatuto e a exploração. O problema surge quando a ideia de crescimento se sobrepõe a esses outros impulsos, que são essenciais para a vida humana.

A manutenção da sobrevivência é um dos impulsos mais críticos. Segundo o IPCC, metade da população mundial já enfrenta escassez severa de água em determinados períodos do ano, e a previsão é que esse número atinja cinco mil milhões até 2050. Em Portugal, a pressão sobre os sistemas de produção e distribuição alimentar é evidente, mas o impulso colectivo para a sobrevivência parece estar a perder força. A desigualdade social e económica agrava ainda mais esta situação.

No que diz respeito ao impulso da reprodução, a realidade em Portugal é preocupante. A taxa de fecundidade está em cerca de 1,5 filhos por mulher, bem abaixo do nível de substituição geracional de 2,1. O adiamento da maternidade é uma tendência crescente, com a idade média da mãe ao ter o primeiro filho a situar-se nos 31,6 anos. As famílias monoparentais e as que têm apenas um filho tornaram-se comuns, refletindo uma supressão deste impulso humano essencial.

A pertença social é outro impulso que merece atenção. Em Portugal, cerca de 1,2 milhões de idosos vivem sozinhos, e a taxa de risco de pobreza e exclusão social ronda os 20%. Estudos europeus revelam que 36% dos jovens se sentem constantemente conectados online, mas a interação pessoal tem diminuído, levando a um aumento da tristeza e da solidão. O impulso de pertença, que deveria unir as pessoas, transformou-se e não para melhor.

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Em suma, enquanto Piketty defende o decrescimento em termos de produção e consumo, muitos críticos argumentam que tal proposta é contra a natureza humana, pois limita um impulso básico de crescimento. Contudo, é crucial considerar que, na busca incessante por esse crescimento, outros impulsos fundamentais, como a sobrevivência, a reprodução e a pertença, estão a ser negligenciados.

A hierarquia de impulsos humanos deve ser repensada. Para Maslow, o crescimento está no topo da pirâmide, mas a inversão dessa lógica, que prioriza o crescimento material em detrimento de outros impulsos, pode levar a consequências desastrosas. A reflexão sobre o decrescimento e os impulsos humanos é, portanto, não apenas pertinente, mas necessária para um futuro equilibrado.

Leia também: O impacto da desigualdade na qualidade de vida em Portugal.

decrescimento decrescimento Nota: análise relacionada com decrescimento.

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Fonte: Sapo

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