A indústria automóvel está a viver um dos períodos mais transformadores da sua história. A transição energética, a digitalização dos veículos e a evolução nas relações entre construtores, distribuidores e clientes estão a redefinir o ecossistema automóvel. Esta revolução silenciosa não só altera a forma como os veículos são vendidos, mas também como são assistidos e acompanhados ao longo do seu ciclo de vida.
No 16.º episódio da 2.ª temporada do podcast ECO Auto, José Teixeira, da BMcar, um dos principais concessionários da rede BMW e MINI em Portugal, discute as mudanças que estão a moldar o futuro da distribuição automóvel. Segundo Teixeira, o setor enfrenta duas revoluções simultâneas: uma tecnológica, impulsionada pela eletrificação e digitalização, e outra comercial, relacionada com a evolução dos modelos de distribuição e o crescente protagonismo dos fabricantes na gestão da relação com o cliente. “A indústria está a mudar por dois caminhos: pelo produto e pela forma de distribuição”, afirma.
A BMcar foi pioneira na implementação do modelo de agência com a marca MINI, uma experiência que, segundo Teixeira, teve resultados positivos. Apesar das dúvidas iniciais, o primeiro ano superou as expectativas e reforçou a importância do concessionário como parceiro próximo do cliente. “O cliente continua a depender das pessoas e da relação de confiança que constrói com quem lhe explica o automóvel”, explica.
A pandemia acelerou a criação da plataforma bmcar.pt, que permitiu manter a atividade comercial durante os períodos de confinamento. Contudo, mesmo num mundo cada vez mais digital, o contacto humano permanece essencial na compra de um automóvel. “O cliente premium valoriza a conveniência digital, mas ainda quer alguém para o acompanhar na decisão”, sublinha Teixeira.
Com a crescente complexidade dos veículos, que agora incorporam mais tecnologia, os clientes procuram entender funcionalidades digitais, atualizações remotas e serviços integrados. “Os automóveis passaram do hardware para o software”, diz Teixeira, que destaca que cerca de 40% das vendas correspondem já a veículos 100% elétricos, além de mais de 40% de modelos híbridos plug-in.
Teixeira considera que o mercado português está entre os mais avançados da Europa na adoção da mobilidade elétrica. Ele defende que a infraestrutura de carregamento já não é um obstáculo significativo para a maioria dos utilizadores. “Hoje, a falta de postos de carregamento não é uma razão para não comprar um automóvel elétrico”, afirma. No entanto, alerta que o mercado dos usados elétricos ainda está a ajustar-se, exigindo prudência por parte dos operadores e consumidores.
Sobre o futuro da mobilidade, Teixeira rejeita uma visão exclusivamente elétrica e acredita na coexistência de várias tecnologias nas próximas décadas, destacando o potencial do hidrogénio, onde a BMW tem investido há anos. Ele também alerta para o risco de que as especificidades do mercado português possam perder relevância nas decisões de fabricantes a nível ibérico e europeu. “É importante que essa realidade continue a ser considerada”, conclui.
Apesar das mudanças, Teixeira mantém que o fator humano será sempre crucial para o sucesso da distribuição automóvel. Num setor cada vez mais tecnológico, a capacidade de criar valor, prestar serviço e construir relações de confiança com os clientes será o que fará a diferença. “Se acrescentarmos valor e prestarmos um bom serviço, continuaremos a ter espaço no futuro da distribuição automóvel.”
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Fonte: ECO





