A soberania tecnológica da Europa tem sido um tema de crescente preocupação, especialmente com a ascensão da inteligência artificial (IA) e a concentração de poder tecnológico nas mãos de empresas norte-americanas e chinesas. A dependência da Europa em relação a infraestruturas, chips e serviços de computação desenvolvidos fora do continente tornou-se um dos principais desafios para a União Europeia (UE).
Nos últimos meses, a discussão sobre a soberania tecnológica ganhou novo impulso, especialmente após a apresentação do modelo de IA Claude Mythos pela Anthropic, uma das líderes em inteligência artificial generativa. Este modelo, que se destacou na área da cibersegurança, foi inicialmente disponibilizado apenas a empresas norte-americanas, sem incluir qualquer organização europeia. Este episódio sublinhou a vulnerabilidade da Europa em termos de inovação e tecnologia.
A situação tornou-se ainda mais crítica quando, em junho, a Anthropic anunciou a suspensão do acesso ao Claude Mythos devido a restrições impostas pela administração de Donald Trump. Esta decisão evidenciou a fragilidade da Europa, que se vê obrigada a depender de tecnologias desenvolvidas fora do seu território. Carlos Carvalho, CEO da Adyta, sublinha que a dependência tecnológica da Europa não é um problema recente, mas sim uma questão que se arrasta há décadas.
A falta de investimento e de uma estratégia coerente têm sido apontadas como as principais razões para a situação atual. Carvalho afirma que a Europa tem contribuído para o avanço tecnológico de outras regiões, enquanto as suas próprias inovações não conseguem escalar devido à falta de financiamento. A dependência de plataformas e ferramentas desenvolvidas fora da Europa, especialmente nos Estados Unidos e na Ásia, tem colocado o continente numa posição vulnerável.
David Grave, Cyber Security Senior Director da Claranet Portugal, alerta que o debate não deve ser limitado apenas à inteligência artificial. A dependência tecnológica sem alternativas é um problema que se estende a várias áreas, incluindo a computação em nuvem. A solução, segundo Grave, passa por adotar uma estratégia híbrida que permita que dados e sistemas críticos permaneçam sob controlo europeu.
A atual conjuntura geopolítica pode, paradoxalmente, servir como um catalisador para a inovação na Europa. Contudo, Carlos Carvalho adverte que não se pode esperar resultados imediatos. A construção de um ecossistema competitivo requer tempo e superação de obstáculos estruturais, como o acesso ao financiamento. A situação é ainda mais complexa, uma vez que as restrições impostas pelos Estados Unidos podem aumentar o fosso competitivo entre as empresas europeias e as suas concorrentes norte-americanas.
A Europa precisa de uma estratégia de inovação a médio e longo prazo, com uma visão unificada que não mude com a mudança de governos. A criação de condições que permitam o desenvolvimento tecnológico é crucial para que o continente recupere a sua posição no cenário global. A soberania tecnológica não é apenas uma questão de competitividade, mas sim uma questão de segurança e autonomia.
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Fonte: ECO





