Quando se fala sobre o futuro da indústria automóvel na Europa, o foco tende a estar nas fábricas, na eletrificação e na concorrência global, especialmente a proveniente da China. No entanto, um aspecto fundamental deste setor é frequentemente negligenciado: o aftermarket automóvel. Este segmento, que abrange a manutenção e reparação de veículos, é vital para a competitividade e inovação do ecossistema automóvel.
Recentemente, foi criada a Automotive Coalition for Europe, juntamente com a iniciativa WeDriveEU. Esta plataforma reúne associações de toda a cadeia de valor do setor automóvel, com o objetivo de promover políticas que reforcem a concorrência e a inovação. A mensagem é clara: o futuro da indústria automóvel europeia será decidido tanto nas fábricas como nas oficinas.
O aftermarket automóvel representa cerca de 900 mil empresas e mais de 3,2 milhões de empregos na Europa, a maioria dos quais em pequenas e médias empresas independentes. Estas empresas são responsáveis pela manutenção, reparação e distribuição de peças, desempenhando um papel crucial na economia europeia. Portanto, é evidente que o aftermarket automóvel não é um setor marginal, mas sim um pilar da competitividade.
Uma questão que merece atenção é quem controlará a mobilidade no futuro. O automóvel evoluiu de um simples produto industrial para uma plataforma tecnológica, cada vez mais dependente de software e dados. A competição já não se limita à produção de veículos; agora, inclui o acesso a dados, software e a relação com o cliente ao longo do ciclo de vida do automóvel.
No século XX, dominar a produção significava controlar o mercado. No século XXI, quem controla os dados e o software terá a vantagem na mobilidade. Nesse contexto, o Right to Repair torna-se essencial. Garantir que as oficinas independentes tenham acesso às informações técnicas e ferramentas necessárias para reparar veículos modernos é fundamental para preservar a liberdade de escolha dos consumidores e estimular a inovação.
A Automotive Coalition for Europe expressa bem este desafio com a frase: “Não há competitividade sem concorrência”. Sem uma concorrência efetiva no aftermarket automóvel, corremos o risco de ver menos inovação, maiores custos para consumidores e empresas, e uma concentração económica crescente.
Além disso, existe uma contradição na abordagem da União Europeia. Enquanto promove a economia circular, muitas vezes ignora que a reparação e reutilização de componentes são também políticas ambientais e de competitividade. Em Portugal, onde o setor automóvel é maioritariamente constituído por pequenas e médias empresas, defender um aftermarket forte e competitivo é crucial para proteger empregos qualificados e garantir uma mobilidade acessível.
Portanto, o futuro da indústria automóvel europeia não se decide apenas nas fábricas. Ele é igualmente moldado nas oficinas, centros de assistência e empresas de distribuição de peças. A vida útil de um veículo não termina quando sai da linha de produção; é nesse momento que começa uma fase essencial da sua existência.
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Fonte: Sapo





