O neoliberalismo é frequentemente apresentado pelos seus defensores como uma abordagem não ideológica, uma racionalidade que parece surgir do nada. No entanto, essa visão simplista é uma ficção conveniente. A ideia de que o neoliberalismo não é ideológico confere-lhe uma legitimidade que ignora a sua história e a sua evolução. Este sistema alinha-se com a noção de que “não há alternativa” (TINA), sugerindo que não existem opções viáveis além do neoliberalismo.
Historicamente, o neoliberalismo está ligado à crítica da economia socialista e à reivindicação de liberdades civis. Enquanto Karl Popper defendia a sociedade aberta, Friedrich Hayek promovia a ideia de uma ordem espontânea, em oposição a uma ordem imposta pelo Estado. Essa crítica, embora válida em alguns aspectos, desconsidera a complexidade da planificação económica, que busca entender as leis da economia e do progresso.
Isaiah Berlin, com a sua doutrina das duas liberdades, destacou a importância da liberdade negativa, que defende o direito de ser “livre de” imposições externas. No entanto, o neoliberalismo rejeita essa noção, preferindo uma abordagem que ignora a contingência e a necessidade de um compromisso social. Essa aversão à ideologia revela-se na sua insistência de que a eficiência do mercado deve prevalecer sobre a vontade política.
O neoliberalismo promove lemas como a livre concorrência e o direito à propriedade, mas também justifica a socialização dos prejuízos enquanto privatiza os lucros. Esta inversão de responsabilidades é evidente nas políticas fiscais, onde a dívida social do lucro é frequentemente ignorada.
Nos anos 70 e 80, o neoliberalismo surgiu como resposta à falência da social-democracia, que enfrentava crescentes desigualdades. A metáfora de Jan Pen, que ilustra a disparidade de riqueza, continua relevante, refletindo a concentração de riqueza nas mãos de uma minoria. Hoje, os 1% mais ricos acumulam uma parte desproporcional da riqueza global, enquanto as desigualdades persistem.
Apesar do crescimento económico global, a desigualdade aumentou, desmentindo a crença neoliberal de que o crescimento beneficiaria todos. A pobreza, visível nas ruas de Lisboa e em outras cidades, é um reflexo das falhas deste sistema. O capitalismo, ao priorizar a reprodução do capital, transforma a economia em um meio de exploração, onde até mesmo a subjetividade humana se torna mercadoria.
O neoliberalismo é, portanto, uma forma pura de capitalismo, que se recusa a fazer concessões em nome da igualdade de oportunidades. Este radicalismo fecha-se às desigualdades e ignora questões como as alterações climáticas. A crítica ao neoliberalismo deve ir além da superfície, questionando as condições que permitem a sua existência.
Para uma mudança significativa, é necessário repensar a acumulação de riqueza e devolver à economia um sentido de temporalidade que respeite o tempo natural. A intersecção entre economia e ecologia pode oferecer um caminho para um futuro mais sustentável.
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Fonte: Sapo





