O povo curdo, que conta entre 35 a 40 milhões de indivíduos, continua a viver sem um Estado próprio, dividido entre quatro países que nunca o quiseram. Este povo tem sido manipulado por várias potências que dele necessitaram e abandonado por aquelas que prometeram apoio. Em 2026, a situação permanece inalterada: Washington precisa dos curdos.
O Tratado de Lausanne, assinado em 1923, sepultou as promessas de soberania para os curdos, e, cem anos depois, o mapa da região continua o mesmo. As alianças e traições mudaram, mas a fragmentação do povo curdo é um reflexo de um século de divisões intencionais. O PDK de Barzani negoceia com Ancara e Teerão, enquanto a UPK mantém laços históricos com o Irão. O PKK é considerado terrorista pelo Ocidente quando convém, e outros grupos iranianos operam a partir do Curdistão iraquiano, aguardando uma oportunidade que nunca chega. Esta fragmentação é uma fraqueza que resulta de um contexto histórico complexo e deliberado.
A relação militar entre Washington e os curdos iraquianos é longa e marcada por traições. Desde a revolta encorajada pela Casa Branca contra Saddam em 1991, que terminou em massacre, até a luta contra o Daesh em 2014, os curdos têm sido uma peça chave na estratégia americana na região. No entanto, a política frequentemente esquece os sacrifícios feitos pelos curdos, lembrando-se deles apenas quando é conveniente.
Além disso, o petróleo é um elemento crucial nesta equação. Empresas como a ExxonMobil e a Chevron não assinaram contratos com Erbil por razões humanitárias, mas sim por interesses económicos. Os 400 mil barris de petróleo que fluem pelo pipeline Kirkuk-Ceyhan alinham interesses de Washington, Ancara e Tel Aviv, criando uma rede de dependências que sobrevive a divergências políticas. Quando o Irão atacou Erbil em fevereiro de 2026, não foi apenas uma agressão a uma cidade curda, mas um ataque a interesses económicos americanos.
A geopolítica em 2026 não se limita ao Médio Oriente. O corredor Trans-Cáspio, que liga o Azerbaijão à Europa, é uma estratégia americana para reduzir a dependência europeia do gás russo. Este corredor também é vital para Israel, que depende do petróleo azerbaijano. A relação entre Israel e o Azerbaijão vai além da energia, incluindo uma colaboração militar significativa que visa contrabalançar a influência do Irão.
O Irão, por sua vez, reconhece a ameaça que esta geometria representa. Recentemente, um míssil iraniano foi interceptado sobre território turco, demonstrando a tensão crescente na região. Teerão não ataca ao acaso; está a atacar interesses americanos, europeus e israelitas numa única artéria de 1.768 quilómetros, o que implica que a resposta a estas agressões não será meramente diplomática.
Os curdos iraquianos, observando a situação no Rojava, concluíram que o Governo Regional do Curdistão possui uma economia e um exército que nenhum acordo diplomático pode simplesmente ignorar. Tornaram-se, assim, um activo fiável para os EUA na região, paradoxalmente mais valiosos após as traições do que antes.
A activação de grupos curdos iranianos como instrumentos de desestabilização de Teerão é uma possibilidade que se alinha com a estratégia americana de utilização de actores por procuração. No entanto, a história ensina que o abandono é uma constante, e os curdos conhecem este padrão. Apesar disso, continuam a aceitar o jogo, não por ingenuidade, mas pela falta de alternativas.
Este ciclo trágico da questão curda revela um povo que aprendeu com a história, mas que não pode aplicar essas lições. As montanhas de Zagros guardam a memória de promessas não cumpridas, enquanto Washington mantém a sua ambiguidade. O jogo, assim, recomeça.
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Fonte: Sapo





