A indústria cerâmica em Portugal está a atravessar uma fase crítica, ameaçada pelo aumento dos custos de produção e pela concorrência desleal de países como a Índia e a China. Jorge Vieira, Presidente da APICER — Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e Cristalaria, alerta que, se não forem tomadas medidas, muitas empresas poderão encerrar as suas portas.
O aumento do preço do gás natural, que duplicou desde o início da guerra na Ucrânia, é um dos principais fatores que afetam a indústria cerâmica. O custo passou de cerca de 30 para 60 euros por megawatt/hora, o que representa um acréscimo anual de 1,5 a 2 milhões de euros para uma empresa de média dimensão. Este aumento é particularmente preocupante, uma vez que a energia pode representar entre 25% e 30% das vendas. Com o preço do gás a subir, este peso pode ultrapassar os 50%, um nível insustentável a médio prazo.
Além do consumo direto de energia, toda a cadeia de produção da indústria cerâmica está a ser afetada. Por exemplo, no caso do pó atomizado, uma das principais matérias-primas, cerca de 45% do custo está relacionado com o gás natural. O mesmo se aplica aos vidros utilizados nos revestimentos. Assim, o aumento dos custos de energia impacta o preço final de praticamente todos os produtos da indústria cerâmica.
As exigências ambientais da União Europeia também estão a aumentar a pressão sobre o setor. Jorge Vieira salienta que a indústria cerâmica enfrenta o desafio de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, enquanto cumpre os requisitos do Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia. Contudo, os limites estabelecidos não refletem a realidade tecnológica do setor, o que leva as empresas a adquirir licenças adicionais no mercado de carbono, aumentando ainda mais os custos.
As alternativas ao gás natural, como o hidrogénio e o biometano, ainda não são viáveis. O biometano, por exemplo, pode custar mais de quatro vezes o preço do gás natural e a sua disponibilidade é limitada. Os empresários defendem que é necessário um mercado funcional para os gases renováveis, e que o apoio deve ser direcionado ao consumo, não apenas à produção.
Outro risco que a indústria cerâmica enfrenta é a “fuga de carbono”, onde as empresas transferem a produção para países com menos exigências ambientais, como Marrocos. Isso resulta na perda de empregos e investimento na Europa, com Jorge Vieira a alertar que esta situação pode levar a uma desindustrialização generalizada.
Os efeitos da crise já são visíveis: mais de metade das empresas no segmento de pavimentos e revestimentos reportaram prejuízos no último ano. A concorrência de países onde os custos de produção são significativamente mais baixos está a aumentar, colocando a indústria cerâmica portuguesa em desvantagem. A APICER fez uma pesquisa que revelou que os preços de produtos cerâmicos importados da Índia são pelo menos 50% inferiores ao custo de produção em Portugal, o que leva a indústria a considerar a importação em larga escala como uma opção.
A indústria cerâmica é um setor relevante para a economia portuguesa, contribuindo significativamente para as exportações e utilizando matérias-primas nacionais. A situação atual, marcada por custos elevados de energia e carbono, juntamente com a concorrência desleal, pode redefinir o futuro da cerâmica em Portugal e na Europa.
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Fonte: Sapo





