O economista português Ricardo Reis alertou para o regresso da repressão financeira sobre os detentores de dívida pública, numa conferência do Fundo Monetário Internacional (FMI). Este fenómeno, que se pensava ter desaparecido após quatro décadas, pode voltar a ser uma realidade devido a uma combinação de fatores económicos.
A repressão financeira refere-se à capacidade dos Estados endividados de extrair recursos dos detentores da dívida, desvalorizando-a inesperadamente e oferecendo descontos sobre os pagamentos de juros. Ricardo Reis descreveu esta situação como um imposto sobre os detentores da dívida, que pode ser tentador para os decisores políticos que enfrentam dificuldades orçamentais.
Durante a sua intervenção na 26ª Conferência Anual de Pesquisa Jacques Polak, Reis recordou que, entre o final da Segunda Guerra Mundial e meados da década de 1980, a repressão financeira era uma prática comum. Agora, com elevados níveis de endividamento e desequilíbrios macroeconómicos globais, este fenómeno parece estar a ressurgir.
O economista identificou três formas principais de repressão financeira. A primeira envolve impostos diretos sobre o setor financeiro, que podem aumentar em tempos de crise. A segunda forma é a inflação ou depreciação inesperada da moeda, que reduz o valor real da dívida. Entre 2021 e 2024, uma parte significativa do aumento da dívida pública foi absorvida pela inflação, o que demonstra a eficácia desta abordagem.
A terceira forma de repressão financeira consiste em criar descontos nos retornos que os governos pagam aos credores, especialmente em relação aos juros da dívida. Políticas que afetam a dívida externa, como tarifas alfandegárias e a depreciação da moeda, também são exemplos de como os governos podem sustentar mais dívida com menores excedentes comerciais.
Ricardo Reis enfatizou que, embora a repressão financeira possa ser uma solução tentadora, a sua aplicação pode ser mais complexa hoje em dia. A geração de inflação inesperada é mais difícil do que era em 2021, e a independência dos bancos centrais dificulta a criação de surpresas inflacionistas prolongadas. Além disso, a curta duração da dívida privada não indexada limita a capacidade de desvalorização.
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Fonte: ECO





