Recentemente, estive em Bruxelas, no icónico edifício da Comissão Europeia, a convite da DG CLIMA, para discutir o EU Green Deal. As conversas que tive com o Comissário para o Clima, Wopke Hoekstra, revelaram uma mudança significativa na abordagem da Europa à transição climática. O tom das discussões foi pragmático e focado na realidade, afastando-se da retórica habitual sobre “ambição”.
Uma das conclusões mais importantes foi que a transição climática deve ser vista como uma questão de competitividade e independência estratégica, e não como um luxo moral. Durante a reunião, questionei sobre a complexidade regulatória e a resposta de Hoekstra foi clara: regras que geram custos desnecessários não são eficazes. A simplificação da burocracia é essencial para garantir que a transição climática prossiga.
Hoekstra enfatizou que a Europa não pode ver o clima e as empresas como opostos. Para ter sucesso, a Europa deve ser mais limpa, competitiva e menos dependente. Se uma política não reduz custos e fortalece a capacidade industrial, não está a resolver o problema. A estratégia europeia assenta em três pilares: ação interna robusta, coligações internacionais e mobilização de financiamento global. Contudo, a Europa não pode assumir sozinha o custo da transição.
Falámos também sobre a necessidade de diversificar as fontes de energia. A transição para energias renováveis e a eletrificação são cruciais, mas as empresas e os cidadãos só farão essa mudança se as alternativas forem melhores em termos de preço e segurança. O custo de não agir pode ser superior ao custo da transição, como indicou um relatório do Reino Unido.
A questão da independência energética foi outro ponto central. Hoekstra sublinhou que a Europa é “pobre” em energia e, enquanto isso não mudar, permanecerá vulnerável. Criar abundância de energia limpa é fundamental para baixar preços e proteger famílias. A transição climática deve, portanto, ser vista como uma agenda de soberania económica e melhoria da qualidade de vida.
Outro tema relevante foi a economia circular. A Europa utiliza demasiado e reutiliza pouco, o que não é apenas um problema ambiental, mas também industrial e de competitividade. Se a Europa liderar na circularidade, poderá beneficiar em várias frentes, incluindo clima e força económica.
A comunicação também foi discutida, com a necessidade de adaptar a mensagem às novas realidades das redes sociais e da desinformação. A capacidade de comunicar de forma eficaz é crucial para garantir que a transição climática seja bem recebida.
Saio desta experiência em Bruxelas com a convicção de que a transição climática não falha por falta de ciência, mas sim por falta de alinhamento entre políticas, investimentos e perceções públicas. A verdadeira questão agora é se temos coragem para tornar a transição executável. A Europa deve acelerar a sua transição climática, e a voz dos jovens deve ser amplificada neste processo.
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Fonte: ECO





