A crise da água, frequentemente vista como um problema ambiental, está a emergir como um risco sistémico com repercussões diretas na economia global. A escassez hídrica e a degradação dos ecossistemas fluviais não afetam apenas o meio ambiente, mas também a inflação, as cadeias de abastecimento e a estabilidade dos sistemas financeiros.
De acordo com projeções, até 2050, cerca de metade do PIB mundial será gerado em regiões que enfrentam elevado risco hídrico. O aumento da frequência de secas, cheias extremas e a degradação dos ecossistemas de água doce já estão a provocar volatilidade nos preços das matérias-primas, perdas significativas nos setores agrícola e industrial, interrupções logísticas e uma pressão crescente sobre seguros e crédito. Este não é um cenário distante, mas uma realidade que já se faz sentir.
Em Portugal, a crise da água deixou de ser uma preocupação abstrata. Em 2025, algumas albufeiras atingiram níveis alarmantes, inferiores a 15% da sua capacidade. Embora a precipitação no final do inverno tenha proporcionado uma recuperação temporária, estes episódios sublinham a crescente volatilidade hídrica e a vulnerabilidade de setores económicos que dependem da água. A agricultura de regadio, o turismo e a agroindústria, que são fundamentais para as economias do Algarve e do Alentejo, enfrentam riscos cada vez maiores de interrupção, perda de produtividade e aumento de custos. Como resultado, estes choques começam a refletir-se em quebras de rendimento, incumprimentos de crédito e pressão sobre os seguros agrícolas.
Apesar da gravidade da situação, os riscos associados à água continuam a ser subestimados nos quadros de supervisão financeira. Embora os riscos climáticos estejam a ser gradualmente considerados, a água permanece uma variável secundária, quando deveria ser vista como um fator central na economia. Existe um paradoxo preocupante: os sistemas financeiros continuam a direcionar capital para atividades que consomem grandes quantidades de água, como a agricultura e a indústria, o que agrava a sobre-exploração dos recursos hídricos. Este capital, por sua vez, fica exposto aos riscos que contribui para criar, gerando um ciclo vicioso que fragiliza a estabilidade financeira.
Além disso, o financiamento necessário para a transição para uma gestão hídrica sustentável é ainda insuficiente. O apoio a soluções que promovem a recuperação de rios e a gestão sustentável de bacias hidrográficas está aquém do que é necessário. Os fluxos financeiros prejudiciais superam em muito os investimentos que visam aumentar a resiliência hídrica, perpetuando vulnerabilidades económicas.
Neste contexto, o novo guia da Greening Financial Regulation Initiative da WWF, intitulado “Navigating toward Water Resilience”, destaca que integrar os riscos hídricos na supervisão financeira não é uma opção, mas uma necessidade. É crucial melhorar as ferramentas de avaliação de risco, incluir a água nos testes de esforço, aumentar a transparência da informação e apoiar a transição para economias mais sustentáveis.
A segurança da água é, portanto, uma condição essencial para a estabilidade macroeconómica e financeira. Reconhecer a água como um ativo sistémico é um passo fundamental para transformar um risco crescente numa oportunidade de reforçar a resiliência económica. Caso contrário, continuaremos a lidar com consequências desastrosas, cujos custos aumentarão para todos.
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Fonte: Sapo





