Quando se fala em crises energéticas ou conflitos no Médio Oriente, o foco recai frequentemente sobre o petróleo. No entanto, existe um produto menos visível, mas que pode ter um impacto ainda mais direto no nosso dia a dia: a ureia. Este composto químico, com a fórmula CO(NH₂)₂, é fundamental para a produção alimentar global.
A ureia é o fertilizante nitrogenado mais utilizado em todo o mundo e a sua produção depende fortemente da amónia, que, por sua vez, está intimamente ligada ao gás natural. Sem ureia, a agricultura moderna não conseguiria manter os níveis de produção que conhecemos atualmente.
A produção de ureia está concentrada em alguns países, como a China e a Índia, que, apesar de serem grandes produtores, consomem quase tudo internamente. Outros países relevantes incluem a Rússia e os países do Golfo, como a Arábia Saudita, o Qatar e Omã, que representam cerca de 15% da produção mundial de ureia.
O problema surge com o bloqueio do Estreito de Ormuz, que pode desencadear um efeito dominó. Quando a ureia encarece ou escasseia, a oferta global diminui. Isso leva os agricultores a reduzirem o uso de fertilizantes, resultando numa queda na produção agrícola e, consequentemente, num menor rendimento por hectare. O efeito é claro: cereais como milho, trigo e arroz tornam-se mais caros, assim como a ração animal, que é composta principalmente por milho e soja. Com isso, os preços da carne, do leite e dos ovos aumentam, e os custos são transferidos para o consumidor, contribuindo para a inflação alimentar.
Os países mais vulneráveis a esta situação incluem o Brasil, que enfrenta um forte impacto nos custos agrícolas, a Índia, que enfrenta pressão no seu orçamento público devido a subsídios, e a África Subsaariana, que corre o risco de insegurança alimentar. A União Europeia também sente a pressão, com o aumento dos custos de energia e fertilizantes.
Em Portugal, as consequências da subida dos preços da ureia são visíveis. O pão e as massas, que dependem do trigo, ficam mais caros. Além disso, a carne, o leite e os ovos também aumentam de preço devido ao encarecimento da ração. Produtos importados tornam-se mais caros, afetando ainda mais o orçamento das famílias.
Em suma, a ureia pode não ser um tema comum nas notícias, mas está presente em quase tudo o que consumimos. Quando um ponto crítico como o Estreito de Ormuz é bloqueado, o impacto não se limita ao setor energético; ele chega diretamente à nossa mesa.
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Fonte: Doutor Finanças





