No recente TEDx Porto, Bruno Giussani, escritor e jornalista, abordou um tema crucial: a soberania digital. A sua mensagem foi clara e provocadora: não controlamos verdadeiramente o mundo digital em que vivemos. Durante anos, a tecnologia foi vista como uma mercadoria, mas hoje percebemos que é um ambiente em que habitamos constantemente.
As plataformas, a cloud e os algoritmos formam infraestruturas invisíveis que moldam a nossa realidade. Eles determinam o que vemos, o que sabemos e até como tomamos decisões. O mais alarmante é que estas ferramentas não nos pertencem, embora muitas vezes tenhamos a ilusão de que sim. Estamos a viver numa economia onde o acesso substitui a propriedade, com cada vez mais subscrições e menos hardware e software.
Na verdade, não possuímos dados, apenas temos permissões para aceder a eles. Assim, quem controla a infraestrutura digital controla o jogo. Giussani destacou a dependência da Europa em relação às tecnologias dos Estados Unidos, que representa entre dois terços e três quartos do que utilizamos. Esta dependência não é apenas tecnológica, mas uma questão estratégica de soberania sobre a informação. Se um dia o acesso a essas tecnologias for restringido por razões políticas ou económicas, as consequências podem ser devastadoras: empresas paradas, sistemas públicos bloqueados e decisões suspensas.
Além disso, a dependência é também cognitiva. A inteligência artificial generativa trouxe eficiência, mas também uma delegação de pensamento que pode ser perigosa. Ao aceitarmos respostas sem questionar, estamos a entregar a nossa autonomia. Giussani usou a metáfora de “biberões cognitivos” para descrever como milhões de pessoas consomem pensamentos já processados, esquecendo-se do risco que isso representa. Quanto mais delegamos, menos conseguimos funcionar sem essa ajuda.
O controlo, que antes estava no hardware, agora reside em algoritmos que filtram informação e plataformas que moldam comportamentos. Este modelo baseia-se na comodidade em troca de controlo. A questão que se coloca é: o que fazer com esta realidade?
A resposta não é radical. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas sim de tomar consciência e fazer escolhas informadas. A soberania digital deve ser entendida como a capacidade de escolher e adaptar, sem depender totalmente de soluções externas. Isso implica investir em tecnologia europeia, valorizar soluções abertas e desenvolver competências internas.
É fundamental que cada um de nós esteja ciente do impacto das nossas decisões diárias. Todos os dias, entregamos dados e aceitamos sugestões sem perceber as consequências. A mudança começa aqui, com uma escolha consciente de questionar e não aceitar o caminho mais fácil. O futuro não será decidido por quem usa mais tecnologia, mas por quem mantém o controlo sobre ela.
Num mundo cada vez mais automatizado, a verdadeira vantagem pode ser a capacidade de continuar a pensar por conta própria.
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Fonte: Doutor Finanças




