Criar uma empresa em Portugal: fácil, mas gerir é um desafio

Em Portugal, abrir uma empresa é um processo que pode ser feito em poucas horas. É possível escolher um nome, obter um Número de Identificação Fiscal (NIF), abrir uma conta bancária e sair de uma conservatória com uma sociedade pronta a funcionar. No entanto, a verdadeira dificuldade surge na gestão de empresas, que pode levar anos a dominar.

A falta de um manual de instruções é um dos principais obstáculos. Muitos empreendedores não têm formação em gestão e enfrentam desafios como a liderança de equipas, o controlo da tesouraria, a definição de preços e a interpretação de demonstrações financeiras. A realidade é que, frequentemente, as competências técnicas não se traduzem em competências de gestão.

Os números falam por si: cerca de um quarto das empresas em Portugal fecha no primeiro ano e mais de metade não sobrevive ao terceiro. Apesar do surgimento de novas empresas anualmente, muitas acabam por desaparecer, não por falta de capacidade, mas pela confusão entre saber fazer e saber gerir.

A educação também desempenha um papel crucial. O sistema educativo português não prepara os jovens para a realidade financeira e empresarial. Durante anos, aprendemos a resolver equações complexas, mas raramente adquirimos conhecimentos sobre gestão financeira, liderança ou empreendedorismo. Esta lacuna resulta numa iliteracia financeira que se reflete na forma como os novos empresários enfrentam o mercado.

Além disso, muitos negócios surgem não apenas por identificação de oportunidades, mas devido a um sistema fiscal que favorece a criação de empresas. A elevada carga fiscal e as regras complexas fazem com que, em muitos casos, seja mais vantajoso abrir uma empresa do que trabalhar como independente. Assim, muitas sociedades são criadas com o objetivo de otimizar impostos, em vez de focar na criação de valor.

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É importante reconhecer a resiliência dos empresários que conseguem manter as suas empresas em funcionamento. Contudo, essa resiliência não substitui o conhecimento. Trabalhar longas horas não é sinónimo de uma boa gestão, e o sacrifício não é suficiente para garantir o sucesso. Muitos empresários afirmam que ninguém os preparou para os desafios da gestão, e isso é uma realidade que deve ser abordada.

A aprendizagem através de erros é uma prática comum, mas também é a mais dispendiosa. Errar em contratações, preços ou gestão financeira pode ter consequências graves. Por isso, quem deseja construir uma empresa sustentável tem duas opções: continuar a aprender com os próprios erros ou procurar mentoria e formação.

Ser empresário é uma competência que se adquire com o tempo e a experiência. É fundamental reconhecer que abrir uma empresa não transforma automaticamente alguém num empresário. É apenas o início de um percurso repleto de desafios e aprendizagens.

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Leia também: Acesso facilitado ao Jornal Económico em formato digital

Fonte: Sapo

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