O setor segurador enfrenta um desafio importante: a necessidade de reimaginar o papel das demonstrações financeiras em IFRS na tomada de decisões. O objetivo principal do relato financeiro é fornecer uma representação fiel da realidade económica das empresas de seguros, abrangendo a sua posição patrimonial, desempenho financeiro e fluxos de caixa. No entanto, este propósito vai além do simples cumprimento das normas contabilísticas. É essencial que as demonstrações financeiras consigam refletir a substância económica das transações e eventos que moldam o negócio, de forma fiável e relevante para todos os stakeholders, incluindo reguladores, investidores e acionistas.
A consistência nas bases de mensuração entre ativos e passivos técnicos é crucial. Em muitos setores, como a banca e a indústria, os instrumentos financeiros são geralmente mensurados ao custo amortizado, o que garante um alinhamento conceptual. No entanto, no setor segurador, a situação é diferente. As empresas de seguros investem predominantemente em títulos de dívida, que são frequentemente mensurados ao custo amortizado, enquanto os passivos técnicos são avaliados ao valor corrente. Esta assimetria pode criar uma desconexão entre a contabilidade e a realidade económica, dificultando uma leitura integrada da gestão ativo-passivo.
O enquadramento regulamentar de Solvência II, por outro lado, mensura todos os ativos e passivos técnicos ao justo valor, oferecendo uma visão mais clara da posição financeira e do perfil de risco. Assim, surge a questão: faz sentido manter duas narrativas contabilísticas para a mesma entidade?
A adoção dos IFRS 9 e 17 prometia uma representação mais precisa do modelo económico das seguradoras, mas a coexistência de bases de mensuração distintas gera um paradoxo. O lado esquerdo do balanço, que reflete o passado, e o lado direito, que projeta o futuro, podem não estar alinhados. Os passivos técnicos reagem a mudanças nas taxas de juro e expectativas de fluxos de caixa, enquanto os ativos permanecem mais estáveis, criando uma elasticidade assimétrica que complica a análise.
Este não é apenas um problema técnico; trata-se de uma questão de narrativa económica e da utilidade da informação financeira. As seguradoras gerem riscos de forma holística, mas muitas vezes o relato financeiro não reflete essa complexidade, levando a uma história fragmentada. Os efeitos económicos são monitorizados, mas a sua representação contabilística pode ser intermitente.
É fundamental questionar se as demonstrações financeiras em IFRS estão a medir a realidade económica de forma eficaz e se o relato financeiro está a ocultar volatilidade relevante para a compreensão do risco. Neste contexto, surgem abordagens como o dynamic risk management e o risk mitigation accounting, que visam alinhar o relato financeiro com a gestão de risco real, tornando visível a mitigação do risco de repricing.
Mais do que uma simples alteração técnica, esta evolução representa um teste à maturidade do setor segurador, exigindo disciplina na definição de objetivos e transparência na comunicação do risco. O setor sempre navegou entre prudência e volatilidade, e a introdução dos IFRS 9 e 17 apenas tornou este dilema mais evidente.
O verdadeiro risco não está na volatilidade do balanço, mas na incoerência entre a gestão, medição e comunicação do risco. O futuro do relato financeiro no setor segurador dependerá da capacidade de construir pontes entre as diferentes abordagens temporais. A pergunta mais pertinente é: quando estaremos realmente prontos para olhar para o reflexo completo do nosso modelo económico?
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Fonte: ECO





