A comunicação social portuguesa tem estado em alvoroço com os recentes dados sobre os preços do cabaz alimentar. A cada nova divulgação do INE ou do Eurostat, surgem manchetes alarmantes que afirmam que “os preços dos alimentos continuam a subir”. No entanto, é crucial entender que a inflação não é um fenómeno mágico, mas sim uma questão matemática que muitos parecem ignorar.
A confusão surge frequentemente da falta de compreensão sobre o que significa a inflação. Para ilustrar, se um litro de azeite custava 5 euros em 2022 e passou para 5,50 euros em 2023, isso representa um aumento de 10%. Se em 2024 o preço subir para 5,61 euros, a inflação continua a existir, mas a taxa de crescimento abrandou para apenas 2%. Portanto, quando se diz que “a inflação caiu”, isso não significa que os preços estão a descer, mas sim que a taxa de aumento é menor.
A repetição incessante de que “os preços do cabaz alimentar continuam a subir” sem o devido contexto é enganadora. A inflação moderada, que ronda os 2% a 2,5% em Portugal, é, na verdade, um sinal de uma economia saudável. É importante destacar que a deflação, ou a queda dos preços, é frequentemente um sinal de crise económica. Historicamente, períodos de deflação estão associados a recessões e colapsos da procura, como aconteceu durante a Grande Depressão.
Os exemplos internacionais são elucidativos. No Japão, a deflação prolongada nas décadas de 1990 e 2000 resultou em estagnação económica. Na Grécia, a crise da dívida levou a uma queda dos preços e dos salários, que destruiu empregos e corroeu o investimento. Em contrapartida, experiências de hiperinflação em países como a Alemanha nos anos 1920 e a Venezuela demonstraram os efeitos devastadores de uma economia descontrolada.
Em Portugal, a média da inflação está dentro de um intervalo considerado saudável pelo Banco Central Europeu. Não se trata de um descontrolo dos preços, mas sim de um ajuste natural numa economia em funcionamento. A comunicação social, no entanto, muitas vezes falha em contextualizar esses números, levando a uma falta de literacia financeira entre os cidadãos.
É essencial que os jornalistas e comentadores económicos compreendam a diferença entre a taxa de variação da inflação e os níveis absolutos de preços. A inflação é cumulativa e, portanto, uma taxa de 5% hoje incide sobre o nível anterior, não o anula. Os preços não “voltam ao que eram”, pois a economia não funciona como uma fita de vídeo que se pode rebobinar. O que importa é estabilizar a taxa de crescimento e não congelar o tempo.
Portanto, quando ouvimos que “os preços do cabaz alimentar sobem”, devemos lembrar que isso é um reflexo de uma inflação moderada e saudável. O que precisamos, urgentemente, é de uma elevação da literacia económica em Portugal. As pessoas devem entender como funcionam as grandezas macroeconómicas e o impacto das políticas monetárias.
Em suma, a inflação não é um monstro a ser temido, mas sim a taxa a que a economia respira. E nós, como sociedade, devemos deixar de confundir essa respiração com uma febre alarmante. Leia também: O impacto da inflação na sua carteira.
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Fonte: ECO





