Um recente estudo da Universidade de Coimbra revela que mais de dois terços dos portugueses acreditam que os cuidados paliativos devem ser uma prioridade máxima no Serviço Nacional de Saúde (SNS). A pesquisa, realizada entre 8 e 24 de maio de 2026, envolveu 1.041 adultos residentes em Portugal Continental e teve como objetivo entender a perceção da população sobre os cuidados paliativos e o local preferido para morrer.
Os resultados, divulgados pela Universidade de Coimbra, mostram que 85,4% dos inquiridos reconhecem a elevada importância dos cuidados paliativos. Desses, 67,1% defendem que estes cuidados devem ter “prioridade máxima” no SNS, enquanto 18,3% consideram que devem ter “prioridade alta”. Para Bárbara Gomes, coordenadora do estudo e investigadora da Faculdade de Medicina da UC, estes dados são fundamentais para apoiar políticas públicas que melhorem a resposta do SNS no apoio a doentes em fim de vida.
Além disso, o estudo revelou que 65,4% dos participantes preferem morrer em casa. Deste grupo, 58,1% optaria pela própria habitação, 7,3% escolheria a casa de familiares ou amigos, e apenas 8,1% preferiria uma unidade de cuidados paliativos. A maioria dos inquiridos (55,1%) afirmou já ter cuidado ou apoiado um familiar ou amigo próximo nos últimos meses de vida.
Mayra Delalibera, coautora do estudo, sublinha a necessidade de reforçar as estruturas de resposta domiciliária, garantindo que os cuidados paliativos cheguem a quem realmente deseja estar em casa. Ela destaca que a percentagem de pessoas que prefere morrer em casa aumentou desde um inquérito semelhante realizado em 2010, que registou 51%.
Apesar do aumento da preferência por cuidados paliativos em casa, Bárbara Gomes alerta que o número de equipas domiciliárias no SNS permanece praticamente o mesmo dos últimos dez anos. O apoio de cinco novas equipas pela Fundação “la Caixa” desde 2021, no âmbito do Programa Humaniza, foi um passo positivo, mas ainda insuficiente. “É urgente reforçar ou redirecionar verba da saúde para aumentar o número destas equipas e para incentivar financeiramente as carreiras dos profissionais que nelas trabalham”, defende Gomes.
A população exige uma resposta rápida, uma vez que milhares de doentes e famílias em situação de doença terminal não podem esperar pelo próximo Orçamento de Estado. O estudo foi financiado pela Cátedra Floriani em Cuidados Paliativos da FMUC e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos também se mobilizou, lançando uma petição que já conta com cerca de 8.000 assinaturas, pedindo um acesso equitativo a cuidados paliativos de qualidade. Em Portugal, mais de 150 mil pessoas vivem anualmente com doenças graves e incuráveis, e entre 70 a 85 mil morrem todos os anos necessitando de cuidados paliativos.
Conforme as recomendações europeias, o país precisaria de mais de 100 equipas comunitárias e intra-hospitalares, além de cerca de 1.000 camas especializadas. Contudo, a cobertura atual representa apenas uma fração desse valor, com grandes assimetrias territoriais e falta de respostas adequadas em várias regiões. Os peticionários apelam à expansão das equipas de cuidados paliativos e ao reforço da Rede Nacional de Cuidados Paliativos.
Leia também: A importância da formação em cuidados paliativos para profissionais de saúde.
Leia também: Governo gasta 2,3 milhões diários em baixas médicas
Fonte: Sapo





