A mina de urânio da Urgeiriça, localizada em Nelas, no distrito de Viseu, foi uma das principais fontes de urânio em Portugal durante 80 anos, até a sua paragem na década de 90. Este local histórico, que forneceu minério radioativo a cientistas como Marie Curie e a potências como o Reino Unido e os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, acumula agora um stock de 200 toneladas de concentrado de urânio. O governo de Luís Montenegro decidiu recentemente não avançar com a venda deste material, considerando-o uma reserva estratégica para o país.
Em 2018, o executivo de António Costa chegou a ponderar a venda do urânio armazenado em barris na Urgeiriça, mas essa ideia nunca foi concretizada. Agora, a atual administração reafirma a importância de preservar este concentrado, que pode ser vital para futuras opções energéticas. Uma fonte oficial do ministério do Ambiente e da Energia sublinhou que “não está em curso qualquer processo de venda da reserva de urânio”, enfatizando a necessidade de salvaguardar as opções futuras em função da evolução das políticas energéticas.
O concentrado de urânio, conhecido como ‘yellowcake’, é um produto que, após ser tratado, deve ser enriquecido para ser utilizado como combustível em centrais nucleares. Contudo, o seu enriquecimento também pode permitir a construção de armas nucleares, um tema que está em debate nas negociações internacionais, como as conversações entre os EUA e o Irão. Países como Espanha, França, e Rússia têm capacidades para enriquecer urânio, o que levanta questões sobre a segurança e a utilização deste recurso.
A avaliação do urânio feita pela Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM) em 2012 estimou o seu valor em mais de 13,7 milhões de euros, embora esse número não tenha sido atualizado desde então. Atualmente, com a valorização do mercado, as 200 toneladas de concentrado podem valer até 32 milhões de euros. Apesar do seu valor comercial, especialistas como Bruno Soares Gonçalves afirmam que a venda não é uma prioridade neste momento, uma vez que Portugal ainda não possui a infraestrutura necessária para transformar o urânio em combustível nuclear.
A ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, tem defendido uma aposta nas energias renováveis, considerando que o investimento em energia nuclear não faz sentido no contexto atual do país. Contudo, o secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, admitiu que a discussão sobre a energia nuclear poderia ser relevante a longo prazo, embora não constitua uma solução imediata para os desafios energéticos do país.
Por outro lado, ex-trabalhadores da mina da Urgeiriça defendem a transferência do concentrado para instalações militares ou a sua venda, com as receitas a serem aplicadas em projetos na região. António Minhoto, presidente da Associação dos Ex-Trabalhadores das Minas de Urânio, argumenta que o material radioativo não deve permanecer junto da população, enfatizando a necessidade de uma gestão segura e responsável.
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Fonte: Sapo





