Apesar dos avanços na igualdade de género, as mulheres continuam a enfrentar desigualdades significativas na divisão do tempo entre trabalho remunerado e trabalho doméstico não pago. Um estudo recente do Observatório Género, Trabalho e Poder do ISEG, divulgado antes do Dia Internacional da Educação, revela que as mulheres dedicam mais tempo a tarefas não remuneradas, o que impacta negativamente as suas perspetivas salariais e de carreira.
Em um dia típico, as mulheres gastam, em média, 64% do seu tempo em trabalho remunerado, enquanto os homens dedicam 67%. Por outro lado, as mulheres despendem cerca de 20% do seu tempo em trabalho doméstico não pago, em comparação com apenas 13% dos homens. Esta diferença resulta em menos tempo para atividades de lazer e hobbies, com as mulheres a dedicar 12% do seu tempo a estas atividades, em contraste com 15% dos homens.
As desigualdades persistem mesmo nos fins de semana. Os homens utilizam a maior parte do seu tempo livre em lazer, enquanto as mulheres continuam a realizar tarefas domésticas. A análise indica que os homens dedicam 24% do seu tempo ao trabalho remunerado durante os fins de semana, comparado com 17% das mulheres. Além disso, os homens tendem a investir mais tempo em trabalho filantrópico ou voluntário não remunerado.
Maria João Coelho Guedes, investigadora do ISEG, destaca que esta divisão desigual do tempo penaliza as mulheres. Ao trabalharem menos horas em empregos remunerados, elas ganham menos e tornam-se menos visíveis para promoções. A investigadora sublinha que este padrão se verifica em todas as categorias de mulheres, independentemente da sua posição profissional ou estado civil.
A análise também revela o impacto da parentalidade na desigualdade de género. Mulheres sem filhos dedicam 66% do seu tempo a trabalho remunerado, enquanto as mães apenas 64%. Em contrapartida, os homens com filhos aumentam o tempo dedicado ao trabalho remunerado para 68%. As mães gastam, em média, 22% do seu tempo em trabalho doméstico não pago, comparado com 16% das mulheres sem filhos.
A investigadora alerta que a expectativa social de que as mulheres sejam as principais cuidadoras continua a ser uma realidade, o que afeta a sua carreira e saúde mental. Apesar das melhorias nas licenças parentais, são as mulheres que mais frequentemente interrompem as suas carreiras para cuidar dos filhos, enquanto os homens tendem a aumentar as suas horas de trabalho.
Para mitigar esta sobrecarga, o Observatório recomenda a implementação de medidas que promovam a partilha equilibrada das responsabilidades domésticas, como horários de trabalho flexíveis e serviços de apoio à família. Contudo, a investigadora adverte que a flexibilidade no trabalho pode também intensificar as desigualdades de género, caso a presença física continue a ser vista como sinónimo de compromisso.
É essencial que a cultura de flexibilidade não se torne um fator adicional de penalização para as mulheres. A sobreposição de papéis entre trabalho e vida pessoal pode aumentar o stress e a sensação de estar sempre presente em ambas as esferas. Além disso, o observatório sugere campanhas de sensibilização para desconstruir estereótipos de género associados ao trabalho doméstico e promover a igualdade desde a infância.
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Fonte: ECO





